Enfim, terminou a Copa do Mundo de Futebol Masculino com a Espanha levantando o seu segundo título. Já que não foi possível torcer pela seleção brasileira, torci pela seleção da Espanha. Não sou daqueles que amam odiar o time argentino. Muito pelo contrário. Eu o admiro sob muitos aspectos, sobretudo admiro a genialidade dos lançamentos de Messi para a área, de uma precisão milimétrica sempre.
Houve um tempo em que Messi ameaçou não mais jogar pela Argentina, tantas foram as derrotas sofridas pelo escrete portenho. Messi deixaria a seleção sem um título internacional pela Argentina. Torci para que isso não acontecesse. Não dá para deixar de fora um cara que trata a bola com tanta qualidade e competência. Veio a pandemia e a Copa América de 2021 foi disputada no Brasil, com o vírus humano na presidência do país forçando uma aglomeração de pessoas, o que era o exato oposto do que as pessoas sensatas e a Organização Mundial da Saúde aconselhava. No final, Brasil versus Argentina. Torci pela Argentina, que ganhou por um a zero, com gol de Di Maria. Torci por Messi, para que aquele título premiasse o seu futebol. E torci também contra o vírus na presidência, que, se o Brasil ganhasse, usaria o futebol para fazer apologia da porralouquice, que foi o que ele sempre fez e faz, mesmo preso, mas ainda não amordaçado.
Se a Argentina ganhasse o jogo de ontem, o vírus correlato na presidência daquele país faria o mesmo: usaria o futebol para fazer propaganda do seu governo, escondendo o fracasso de sua política econômica, do regresso da Argentina ao caos financeiro e ao desastre humanitário que é a tônica de governos autocráticos. Por isso não torci pela Argentina.
Há quem pense que futebol nada tem a ver com política. Mero engano. A política impregna o futebol. E este ano, não apenas a política, mas também as bets, como se viu na vergonhosa e vexatória convocação de Neymar para o time brasileiro. Eu até punha esperança no Ancelotti. Mas quando ele anunciou a convocação de Neymar, pensei cá com os meus botões: Ancelotti acaba de anunciar o fracasso da nossa canarinha na Copa. Neymar foi chamado não pela excelência do seu futebol, que já era há muito tempo. Não porque seja um líder em campo, nunca o foi. Mas porque representa dinheiro, muito dinheiro. Em campo, um fracasso. Nas redes sociais, um sucesso. Mas não são as redes sociais que definem os resultados dos jogos. Não, o time brasileiro não merecia ganhar. Tudo o que se viu durante a Copa foi um time frouxo, sem pegada, sem vontade de ganhar, jogando atrás, um time que é hoje o que foi o da Argentina quando Messi ameaçou abandoná-lo. Neymar, no vexame que ele protagonizou contra o goleiro da Noruega, que sequer se deu ao trabalho de tentar defender o pênalti chutado pelo ex-garoto sensação, anunciou que não jogará mais pela seleção brasileira. Penso cá comigo: já vai tarde. Tivesse um pouco de simancol não teria vestido a camisa pra ser protagonista do vexame contra a Noruega. Sequer teria aceitado a sua convocação forçada pelas bets, tirando a vaga de outro atacante.
Lionel Messi é um craque do futebol contemporâneo, mas desta vez não merecia ganhar. Não pelo que ele fez em campo, que fez muito, brilhante como sempre. Mas pelo que ele faz fora de campo. Um cara que não fala em política, mas visita Netanyahu, que visita Trump, que se relaciona politicamente com os piores homens que comandam os seus países hoje. Um cara que nada diz quando a torcida Argentina, racista, faz gestos igualmente racistas contra adversários em campo. E segundo um velho ditado popular, quem cala consente. Lionel Messi seria uma voz poderosa para educar os seus compatriotas se se posicionasse contra o racismo. Mas nada diz. Cala. Consente. Se ele é um craque com a bola é um desastre como figura humana fora de campo. E para mim, em particular, já deu, Messi, você já ganhou tudo o que merecia pelo seu talento de futebolista, mas o segundo campeonato mundial consecutivo não dá. A vitória de Messi e da Argentina seria a vitória do conservadorismo político, seria o gatilho para o vírus que governa a Argentina fazer proselitismo.
Por outro lado, a seleção da Espanha jogou um futebol maravilhoso. Antes da Argentina, teve a Inglaterra, que não encontrou o caminho da área adversária. O time espanhol repetiu o mesmo feito contra a Argentina: o primeiro chute a gol desferido pela Argentina aconteceu no finalzinho do primeiro tempo. O que se viu em campo foi a Espanha neutralizar completamente o ataque argentino. Teria vencido por dois a zero, não fosse a camaradagem da arbitragem da Fifa, que sempre se mostrou camarada com os argentinos, isso que já tinha sido notado em partidas anteriores dessa Copa.
A história tem lá os seus mistérios: Lamine Yamal, o craque espanhol de dezenove anos teria sido embalado por Messi, que divulgou uma foto dando banho no bebê Yamal, que sai dessa Copa como um dos grandes jogadores mundiais. A mão de Messi seria milagrosa como a mão de Maradona, que ao marcar um gol de mão contra a Inglaterra na Copa de 1986 saiu dizendo que teria sido “la mano de Dios”? Não se sabe. O que se sabe é que Maradona também foi um gênio da bola, e um homem politizado fora de campo. Numa Argentina racista se afirmava como indígena. Tinha tatuado no seu braço direito a imagem de Che Guevara e na perna esquerda, Fidel Castro. A mão de Messi banhou Yamal. Teria sido outra vez “la mano de Dios”? Se os obscuros caminhos do destino conduziram uma mão para a outra, Yamal teria recebido de Messi o batismo de craque. Mas, felizmente, herdou da outra mão, a de Maradona, a consciência de que a sua posição como craque não o isenta de se declarar ao lado dos oprimidos deste mundo: quando ganhou o título de campeão pelo Barcelona (time que fora de Messi durante muitos anos), levantou na comemoração a bandeira da Palestina.
E quanto a nós e a nossa combalida seleção, só nos resta a história. Seríamos hexa se fôssemos campeões. Somos hexa, de toda forma: pela sexta vez consecutiva perdemos uma Copa do Mundo. O futebol já não é mais nosso. Não temos craques, temos influenciadores. Não temos time, temos uma agência de propaganda. Temos um grupo que joga futebol de Tik Tok. Daí porque é perfeitamente normal a convocação de Neymar. E o portal para essa nova era do futebol brasileiro se abriu com aquele inesquecível sete a um que tomamos da Alemanha em 2014, no famoso “mineiraço”. Antes disso, o Brasil entrava em campo como virtual vencedor, ganhava por antecipação, todos temiam jogar contra o time canarinho. Agora, bater na seleção brasileira é a diversão de qualquer time peladeiro de várzea. Mas, apesar disso, continuamos a entrar em campo, como se diz na gíria futebolística, de salto alto, achando que ainda somos os bambas da bola. E o horizonte não nos aponta nem de longe a miragem de um Pelé, de um Garrincha, de um Tostão. Somos agora o futebol do Tik Tok. O nosso craque não é mais aquele que faz as leis da física darem cambalhotas, que encanta com dribles de cair o queixo, que traça no campo uma improvável geometria com a sua dança com a bola. O nosso craque agora é aquele que nas redes sociais vende aposta, que bosta!
