Por que a gente se presta a esse papel, hein? Por que tantas de nós aceitamos ser as redentoras da sordidez masculina, como se fosse nossa missão salvar homens do próprio caráter? Eu ainda me pergunto.

Quando éramos namorados, descobri uma de suas muitas traições (e digo muitas porque, naquela época, eu ainda acreditava que tinha sido apenas aquela). Você veio com aquela cara de culpa, aquele jeito de cachorro que caiu da mudança, cheio de desculpas, promessas e arrependimentos, dizendo que não aconteceria novamente.

Trouxe flores, uma aliança e um pedido de noivado, e eu, boba, aceitei. Eu quis acreditar que as flores eram esparadrapos para a ferida que você havia aberto, que o anel era uma promessa de mudança, que o amor, esse bicho teimoso, podia consertar o que a falta de caráter havia quebrado. E eu acreditei. Juro que acreditei.

Vivi um mar de cuidados e bem-quereres, desses que fazem a gente esquecer por alguns instantes que está nadando em águas profundas. Até que, num domingo qualquer, depois que você me deixou em casa, chegou a foto: seu carro, você dentro dele, outra garota ao seu lado. Uma amiga havia visto, fotografado e me enviado. Por sorte ou azar, eu não sei.

Meu chão caiu, e eu jurei que daquela vez seria diferente, que eu te odiaria pelo resto da vida, que não haveria flores, pedidos, lágrimas ou promessas capazes de me fazer voltar. Mas você apareceu de novo com aquela mesma cara de arrependimento, dizendo que tinha sido um deslize, apenas um deslize, como se fidelidade fosse uma linha reta da qual, vez ou outra, um homem pudesse sair para passear.

Na manhã seguinte, acordei com um buquê imenso, uma cesta de café da manhã e um cartão escrito à mão. Eu me derreti. E me derreti ainda mais quando, à noite, você apareceu banhado, perfumado, trazendo uma aliança maior e um pedido de casamento.

Eu quis acreditar que agora, finalmente, eu seria a escolhida. A única. A mulher com quem você dividiria a vida. E, veja só, eu acreditei outra vez.

Mesmo depois de todos os sinais, mesmo depois de todas as pequenas rachaduras que eu fingia não enxergar, eu acreditei. Fiz planos, chá de casa nova, festa, experimentei vestidos de noiva, provei bolos, escolhi recheios, docinhos, convites, flores, detalhes… Eu estava embriagada de futuro. Adicta de um sonho que, eu só não sabia, era exclusivamente meu.

Eu achava que o casamento seria a fronteira definitiva entre você e as outras. Que depois do “sim”, depois da aliança no dedo, depois das fotografias, da festa e da certidão, não haveria mais traições. Até que a morte nos separasse, pensei. Só não imaginei que, antes da morte, quem precisaria morrer seria a minha ingenuidade.

Eu acreditei, juro que acreditei. Talvez eu tenha sido tola demais, ingênua demais, boba demais. Talvez eu tenha sido Alice perdida num país das maravilhas que eu mesma inventei.

O pior da traição é que a traída é quase sempre a última pessoa a saber. Todo mundo parece enxergar antes dela. Todo mundo sabe, comenta, desconfia, enquanto ela continua colocando a mesa, escolhendo o vestido, planejando o futuro e defendendo o homem que, em algum lugar, já a transformou em piada.

Eu era a idiota, a boazinha, a que perdoava, a que acreditava, a que sempre encontrava uma explicação para o inexplicável. E talvez você nem tivesse remorso. Talvez fosse apenas cínico. Sempre foi.

Eu sabia, no fundo eu sabia, mas namorei, noivei, casei. Porque eu acreditava que o casamento faria de você meu. Que a aliança seria uma cerca. Que o papel assinado seria uma espécie de contrato de exclusividade do desejo. Ledo engano.

E é aí que eu me pergunto por que fazemos isso conosco. Por que tantas mulheres suportam a humilhação, engolem a desconfiança, perdoam o imperdoável e ainda se esforçam para manter de pé um casamento que já virou campo de batalha?

Talvez porque nos ensinaram que ser escolhida é uma vitória, que estar casada é um certificado de sucesso, que a mulher solteira precisa explicar sua solidão enquanto a mulher casada pode exibir uma aliança como quem apresenta um troféu. Talvez porque, desde cedo, nos convenceram de que fracassar no casamento é fracassar como mulher.

Então a gente permanece, não porque esteja feliz, mas porque tem medo de parecer derrotada. A gente confunde resistência com amor, perdão com virtude, sofrimento com prova de compromisso. E, enquanto tenta salvar o casamento, vai se perdendo de si mesma.

No fim, talvez a pergunta nem seja por que ele traiu tantas vezes, porque homens como você sempre terão desculpas prontas para aquilo que fazem. A pergunta é por que eu precisei de tantas traições para entender que nenhuma aliança me tornaria única para alguém que nunca aprendeu a ser inteiro.

Talvez muitas mulheres ainda estejam usando alianças como armaduras, sem perceber que, dentro de certos casamentos, elas não protegem ninguém. São apenas pequenas algemas douradas.

E, no campo de batalha que deveria ser casa, quase sempre é a mulher quem sai ferida, enquanto o homem, depois de mais uma promessa, mais uma flor, mais um pedido de perdão, continua caminhando ileso, como se nunca tivesse disparado o tiro.

 

Autoria: 

Bia Crispim de Almeida é professora da rede estadual de ensino do RN, escritora, doutora em Literatura Comparada e militante transfeminista. Nascida em Currais Novos/RN, tem mais de 30 anos de atuação na educação e é autora dos livros No horizonte tem chuva fiando (2022) e Tem poesia em dois dedos de prosa (2026). Sua escrita transita pela literatura, diversidade, gênero e pelas experiências e imaginários do Nordeste brasileiro.