Há visitas que anunciam a chegada.Batem à porta. Esperam licença.

Há outras que já moram na casa.Sentam-se na sala. Dormem na cama.Respiram pelo corpo da gente.

A depressão nunca pergunta se pode entrar. Ela conhece o caminho. Chega sem fazer barulho. E, quando percebo, já rearrumou todos os móveis da alma.

Ontem ela voltou. Ou talvez nunca tenha ido embora.

Ontem foi dia de revisitar meu vazio. De me encontrar no poço fundo em que nenhuma temperatura é sentida. Em que nenhuma textura é sentida. Em que não há nada para se tocar.

Nele não há luz. E a escuridão é difusa.Vejo a mim mesma em estado fetal.Consumida de mim. Sem saber exatamente o que sou, onde dói, por que dói...

Ontem foi dia de revisitar meus medos.De revisitar meus traumas. De sentir não sei bem o quê. Talvez a inércia. Talvez a incapacidade. Talvez a improdutividade. Ou, quem sabe, a inutilidade de ser.

Ontem eu encontrei com um eu-semente que tinha a necessidade de respirar. Era a única ideia próxima do que ainda restava de estar viva. Respirar um ar rarefeito. Um ar cheio de poeira. Sem cheiro. Sem gosto.Sem movimento.

Ontem eu sentia pulsar, de forma lenta e lânguida, meu coração. E dormir era a única forma que eu encontrava de estar e de ser.Como um grão esperando não sei o quê.Talvez o toque da água. Um raio do sol.

Ontem foi dia de me recolher. Me acalentar. Foi dia de introspecção. De silêncio. De abraçar-me. De algum contatocomigo mesma. Seja lá de que tipo fosse.

Há quem imagine que a tristeza chore.Nem sempre. Às vezes ela apenas seca.Seca a vontade. Seca o pensamento. Seca o futuro.

A gente continua existindo. Mas existir vira um verbo pesado. Levantar exige cálculo. Comer exige decisão. Responder a uma mensagem parece atravessar um deserto inteiro.

O corpo permanece. A vida perde sentido. E o relógio insiste em caminhar.Apesar da ausência de referências…

É como se nada estivesse acontecendo.Mas está. Há uma batalha acontecendo.Silenciosa. Sem testemunhas. Sem aplausos. A depressão não grita. Ela sussurra. Diz que tudo perdeu o sentido. Diz que amanhã será igual. Diz que ninguém perceberá a ausência. E o pior não é ouvi-la.É reconhecer a própria voz misturada à dela.

Mesmo assim, há algo que ela nunca consegue levar completamente. Um resto.Uma essência. Quase invisível. Uma centelha. Não chega a ser esperança. Ainda não.

É apenas uma memória de que um dia houve luz. E talvez seja isso que me faça continuar respirando...

Respirando...

Respirando...

À espera de que a visita, um dia, enfim se despeça.