Há muitos anos eu faço teatro. Desde a minha adolescência, lembrando agora. E lembro sempre, com algum espanto ainda, a primeira vez que eu assisti a um espetáculo de teatro, eu que até os meus 16 anos de espetáculo conhecia apenas os do circo que chegavam no Oitizeiro onde eu morava, então periferia de João Pessoa. Quando abriram-se as cortinas para o início do espetáculo, em minha alma um portal se abriu concomitantemente. Para os meus olhos, o que eu via em cena era algo deslumbrante. Mas o mais impressionante foi a sensação depois que saí do teatro e pisei a rua em frente ao velho e amado Santa Rosa: o mundo parecia ter virado ao avesso, o chão parecia ter desaparecido embaixo dos meus pés.
Esta sensação inaugural, esse portal que se abriu em minha consciência ou alma, não sei, voltou a se repetir inúmeras outras vezes ao longo da minha vida já longeva. A última vez que isso me aconteceu foi bem recente, assistindo ao espetáculo A Última Cova, com texto de Newton Moreno, dirigido por Ana Rosa Tezza e interpretado por Marco França.
Marco França eu já o conhecia desde o tempo em que ele fazia a direção musical dos espetáculos do grupo Clows de Shakespeare, de Natal, onde ele também atuava. Não tínhamos nenhuma relação direta, mas eu já o observava na condução musical desse que é um dos melhores grupos de teatro do Nordeste, e ao dizer isso eu digo que, por extensão, também do Brasil, desse Brasil ainda sudestino demais, mirante do seu próprio umbigo. Mas tudo bem. Essa não é a questão. E nesse caso, nem há questão. O que há, de minha parte, é admiração pelo múltiplo talento de Marco França. Músico de tantos instrumentos que se lhe ponham nas mãos, ator de tantos papéis que se lhe dêem a interpretar, o cara soma a tudo isso um caráter amável, uma pessoa em tudo afável. Depois de tantos anos aplaudindo-o em cena tive a sorte de contracenar com ele no seriado escrito por George Moura, Guerreiros do Sol, em que eu, o fazendeiro, tem a sua propriedade invadida por cangaceiros e depois é executado por um dos cabras do bando de Josué. O cangaceiro que recebe a ordem para a execução é interpretado pelo gentil Marco França. Foi lindo. Amei fazer a cena com ele. Assim como amei vê-lo em cena no espetáculo solo A Última Cova.
Antes de mim, Suzy Lopes o assistiu. O entusiasmo com que ela me falou: “meu amor, vá assistir, Marco França é um gênio”, havia em seus olhos o brilho de quando se assiste a um espetáculo que mais do que espetáculo é um portal que se abre para outra sensibilidade, intensa e profunda. Claro, não deu outra, dia seguinte estava eu no teatro. E aconteceu.
Tantas vezes eu já me perguntei o que é isso que tem o teatro que faz a gente fazer piruetas no ar. Para encontrar a resposta desse misterioso teorema do espírito eu passei grande parte de minha vida estudando os mestres do teatro, tanto na dramaturgia quanto na encenação e principalmente na arte da interpretação, e creio, já agora com os meus cabelos brancos, ter alguma resposta racional. Mas a resposta, meu amigo, a melhor de todas, talvez a mais objetiva seja a subjetividade da poesia, porque a arte como a do teatro não se define pela razão, mas pelo sentimento que é capaz de despertar no espectador que se vê num rompante tomado pelo inesperado da cena. A resposta, meu amigo, diria Bob Dylan, está soprando com o vento.
Em que elemento da composição está assentado o inusitado teatral? Por muitos anos eu pensava que talvez estivesse no texto. Que no caso é igualmente brilhante. Newton Moreno é seguramente, hoje, um dos grandes poetas da cena contemporânea brasileira. A Última Cova é um texto que traz a trajetória de um homem que sai do Nordeste para São Paulo à procura da mãe que o abandonara. Para sobreviver, trabalha como coveiro, e nessa função vai colhendo histórias hilárias que fazem rir e fazem emocionar a ponto de provocar na plateia alguma furtiva lágrima pelos descaminhos que o coveiro encontra. Um texto lindo, escrito especialmente por Newton Moreno para Marco França, que retribui a beleza com a sua performance, numa troca singular de sensibilidade. Estaria no texto a beleza que transcende ou no trabalho rico em minúcias gestuais do ator? Poderia também estar na encenação igualmente genial de Ana Rosa Tezza, na composição corporal que ela ajudou a moldar no ator? Onde entre esses elementos está a arte que é a chave do portal que eleva o espírito? Estaria na composição musical, na iluminação, nos figurinos do ator e dos dois músicos que fazem a ambiência sonora do espetáculo? Talvez, quem sabe, no cenário, simples e funcional? A resposta, amigo, está soprando com o vento. Somente digo uma coisa: se você está em São Paulo não deixe de ir ao Teatro Companhia da Revista em qualquer desses dias: sábados, domingos e segundas, até o dia 31 de agosto. Vá, e se prepare para uma viagem emocional movida apenas pelo barato da poesia teatral.
