Em Areia sempre se fala de cachaça: “Ah, mas é a capital da cachaça”, “É a campeã na produção de cachaça”, “Ganhou prêmio daqui, d’acolá”. O que não se fala é de gente morrendo de cirrose, overdose, deacidentes provocados pela embriaguez, que mata, mutila, destrói famílias. “Responsabilização? De quem? Para quem? Bebe quem quer.” E assim, seguimos indiferentes aos desastres.
Quem produz deveria ter responsabilidade social, de conscientização constante, fiscalizar, promover campanhas de cuidado e segurança, que sejam minimamente notórias. Porém, em Areia, se isso existe, deve tá no verso do rótulo. Os poderes públicos, os quais deveriam cumprir melhor seu papel na defesa da vida, saúde e proteção da juventude, acolhendo pessoas vítimas do vício, criandolocais específicos para ajudar em tratamentos, promovercampanhas rigorosas contra o consumo de álcool por menores nas escolas, não produz nenhum movimento contundente nesse sentido.
Há uma chuva de publicidade na qual a cachaça é eleita cura para traição, remédio para criar coragem, para esquecer as dores, porta para diversão e vários outros apelos emocionais na música, no rádio, internet, outdoors, shows com patrocínio, em todo lugar. Indução pela propaganda que alimenta o mal é coletivo, o alcoolismo. Alcoolismo não se dá, nesse caso, por conduta individual, meu povo. É fato social. É histórico: a cana, no Brejo, é arma de explorar e ceifar vidas desde a época dos banguês.
Os nossos jovens, desde cedo, são convidados a se embriagarem e muitos são até iniciados pelos próprios pais, os quais muitos são jovens adultos também foram iniciados na adolescência.
E antes que venham dizer que estou meramente atacando a cachaça e sua comercialização, enfatizo que para mim o que é inadmissível não é o consumo do produto e sim que o promovam sem chamamento categórico para beber com responsabilidade, moderação, sem os apelos gritantes para o consumo exacerbado.
Este ano, durante o evento “Caminhos do Frio” emAreia, uma das atrações do palco principal convidou quatro pessoas da plateia para virar o litro diante o público. Todos testemunharam aquela cena pavorosa, uns em êxtase, outros perplexos e outros achando graça. Os participantes saíram entortando as pernas depois de tomarem várias doses no gargalo. Por que será que o próprio cantor não entornou o litro? É que bêbado não se sustenta de pé, nem no palco nem em lugar nenhum. Talvez para aqueles quatro voluntários, a festa tenha terminado mais cedo ou de modo adoecedor. Logo mais, em agosto, acontecerá o evento “Areia mostra cachaça” e a publicidade já está no ar. Teremos mais uma ode ao consumo sem lembrar moderação.
Lembro-me do velho Bregareia, festa popular da música brega, da cachaça e da rapadura, promovida na cidade, entre os anos 1990 e primeira década de 2000. Uma das grandes críticas à festa foi o consumo exageradode cachaça entre os jovens. Porém, hoje, a diferença é queAreia promove o alcoolismo gourmetizado, simuladamente dentro do controle, sem garrafas quebradas na praça, paredões nas ruelas e casarões históricos perfumados com urina e vômito. Repaginada a promoção do alcoolismo, fica mais difícil fazer as devidas cobranças. Tudo muito limpinho. Ninguém repara na calamidade. Não há estatística produzida e publicizada, nem estudos relacionados ao alcoolismo em Areia. Em contrapartida, há muita coisa sobre produção de cachaça e turismo, cachaça e desenvolvimento econômico. Tudo é reduzido a ganho econômico – e nem vou entrar no mérito de ganho econômico para quem. Até mesmo a cultura tornou-se secundária e um mero meio para promoção da cachaça.
A população, sobretudo a mais vulnerável, deveria ser lembrada constantemente que a cachaça, ingerida de modo irresponsável, causa morte, aumenta a violência doméstica, incita fuga de menores de suas casas por medode agressões e violência sexual, estimula o abandono de incapaz e tantas outras perdas irreparáveis a curto e longo prazo.
Tomar aquele drink, aquela caipifruta, provar aquela dose com ou sem limão durante o frio ou numa celebração com amigos é diferente de consumir diariamente até que o processo inverso ocorra, onde o alcoolismo consome a vida de quem deveria apreciar a cachaça para celebrar a vida, o trabalho e a cultura.
Tays Melo. Areia, 15 de julho 2026.