Autoria: Bia Crispim


Esses dias
elaborei um comando para a IA escrever um texto pramim. Estava sem vontade, sem inspiração, sem uma ideia sólida que pudesse me render uma crônica. E eis que, em menos de 5 minutos o texto estava pronto. (Fiquei impressionada com a rapidez com que ela processou os comandos). Li-o e preciso dizer que o resultado ficou bom, mas…

 Faltava àquele texto uma certa desenvoltura, uma fluidez, uma malemolência, talvez menos rigidez. Faltava-lhe o tempero da humanidade. Era um texto frio (pouco emocionado para meus padrões), feito de palavras ocas que retumbavam um som de vazio desolador. Texto sem alma, sem energia, sem química.

 Apesar de as diretrizes para o texto serem minhas, eu não aparecia nele. Eu não estava ali, apesar de serem minhas as ideias digitadas no comando criador (Fiat textus!!), ele não passava de um avatar…bonito, mas um pouco distante do original.

 A emoção que gosto de imprimir aos meus textos não se manifestava naquele produto de um comando. Era um texto obediente, mas insosso, destemperado, sem sal, sem molho… Sem minhas reticências… Sem minhas exclamações e interrogações juntas... Sem minhas digressões. (Acredita!?)

 Deixei-o de lado e resolvi escrever sobre esse episódio. (Agora eu tinha um mote para produzir, eu mesma, a minha crônica). Preciso começar confessando que essa experiência não foi de toda ruim. Mesmo que já tenha exposto o que pensei de ruim sobre o resultado do meu prompt, digo também que aprendi uma lição fabulosa: nada substitui a relação autor(a)-texto. Essa relação íntima de escolher, agrupar, dar significado, manipular, repetir, omitir, despedaçar as palavras que só quem escreve sabe como é.

 Essa experiência incrível de manejar a língua para traduzir o que se pensa, o que se sente, o que se viu, o que se experimentou ou viveu…

 Experiência única que se dá cada vez que me debruço sobre uma folha em branco, uma tela em branco e uma ideia solta a correr pela cabeça. Há que capturá-la, e é o texto que faz essa captura. Ele enclausura a ideia em si, ao passo que ele mesmo a liberta.

 Você que me lê e que não escreve pode não alcançar o que essa relação significa, autor(a)-texto… Mas você que me lê e escreve, sabe exatamente do que estou falando: dessa intimidade obscena que criamos com as ideias, as palavras e suas formas de manifestação. Criamos linguagens próprias, e elas são as filhas dessa relação tão profícua.

 Encerro esta crônica com um convite: Experimente!!!

 Jogue com palavras, brinque com elas, faça delas uma extensão sua… Ao contrário do que disse Drummond, adule-as. Crie uma relação afetiva, de amor ou de ódio, mas permita que elas saltem para uma folha em branco, para um bloco de notas, para uma tela… Humanize-as!!!

 As palavras carecem de um certo dengo para que se temperem de desenvoltura, de fluidez, de malemolência, quem sabe de menos rigidez… Para que elas se tornem emocionadas, humanamente emocionadas, produzindo textos também humanamente emocionados, distantes daqueles frutos de um comando para uma IA.