O ataque de um país a outro é sempre questionável (esse mesmo argumento utilizei quando da invasão da Ucrânia pela Rússia) por mais ilegítimo e tirano que seja o governo do país agredido, como é o caso da Venezuela. A impopularidade de Nicolás Maduro ficou confirmada pela quase nenhuma resistência das pessoas para defendê-lo e pela passividade com que assistiram a sua prisão e traslado para os Estados Unidos. A relativa calma que paira sobre Caracas após as ações do Sábado, 3, é de matar de inveja qualquer ucraniano nesse momento.
Sem simpatia por seu Presidente, os venezuelanos meio que aceitaram a ação americana. A cidade está bem calma num sinal de indiferença com a captura de Maduro. Reflexo do estado de falência e descrédito em que se encontrava o chavismo, regime que levou ao colapso a economia venezuelana nas últimas duas décadas e sua população à miséria. A situação clamava por mudanças, mas o continuísmo do regime, respaldado por eleições fraudadas e juízes corruptos, não permitiam.
Nicolás Maduro aparelhou o estado e suas instituições à sua conveniência, inclusive trocando os juízes da alta corte para lhe dar sustentação “legal”, buscando legitimar sua permanência no poder depois de uma fraude eleitoral em que, até mesmo o Presidente Lula se recusou a reconhecer. Manifestações de impopularidade nas ruas eram contidas pelas milícias paramilitares que se encarregavam de reprimir a população ao menor sinal de animosidade. Até o dia 31.12.2025, contava-se mais de 1.000 presos políticos nas cadeias de Caracas (200 deles soltos no primeiro dia de janeiro e outros 200 ao longo da primeira semana do ano). Era assim que Maduro se mantinha no poder até ser capturado.
As retóricas para uma invasão tal como se viu na Venezuela tem sempre justificativas discutíveis, a exemplo do ataque ao Iraque por George Bush na década de 90 ou a invasão na Ucrânia pelos russos em 2022. Estratégias militares e geopolíticas são sempre as maiores motivações para ações nesse sentido. O combate ao narcotráfico foi um pretexto pouco convincente de Donald Trump, embora este também seja um problema real para os EUA no qual, é provável, Maduro esteja envolvido. O tráfico de drogas pode ser combatido dentro de suas próprias fronteiras, mas Trump tinha outras razões para comandar a operação que prendeu o Presidente venezuelano: o de diminuir a influência chinesa na América do Sul e mandar um recado ao mundo de que no “quintal americano mandam os americanos”. Claro que, embora a razão para a captura de Maduro seja mais política do que econômica, a mudança de regime na Venezuela vai viabilizar a volta dos investimentos dos americanos no setor petroleiro daquele país, como visto até os anos noventa e como já disse o próprio Trump.
Na paz ou na guerra, negócios à parte: mesmo sob o chavismo, grandes empresas estrangeiras, inclsive americanas, nunca deixaram de extrair petróleo na Venezuela. A tarefa dos investidores agora é recuperar as velhas instalações petrolíferas americanas estatizadas por Hugo Chavez, agora sucateadas. Isso custará uns poucos bilhões de dólares e não acontecerá do dia para noite, ainda mais com o petróleo desvalorizado como está. De imediato, a motivação maior de Trump foi mesmo tirar Maduro do poder para dar seu recado, e para isso pretexto foi o que não faltou.
É certo também que a ação americana em Caracas caiu como uma luva para a oposição e todos aqueles que repudiavam a tirania de Maduro. Isso explica a calma na capital venezuelana nesse momento e a apatia da população com a captura de seu Presidente vigarista. A legalidade dessa ação será debatida à luz do direito internacional em vários fóruns e organismos mundiais, mas ninguém melhor do que os próprios venezuelanos para condenar ou não a intervenção americana que afastou o tirano e dará novos rumos ao seu país . Quanto a Trump, e também Putin, ninguém irá julgá-los. Estes têm armas nucleares e poder de veto na ONU. Contra eles só haveria eles mesmos, mas são covardes e parecidos para irem além da troca de bravatas. O que eles consideram seus quintais lhes bastam.
Dermival Moreira
É bancário aposentado, com Licenciatura em Geografia na UFPE e é autor de “Identidade e Realidade – artigos e crônicas”.