Entender o contexto de algo, o que quer que seja, exige entender seu passado, sua história. Na diplomacia, não é diferente. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial existia predominantemente, em todas as relações internacionais, um receio absoluto de que uma guerra de larga escala se repetisse.

A Guerra Fria proporcionou momentos de verdadeira tensão, e muito se pensava qual seria o resultado da soma entre avanço tecnológico e profundas diferenças de ideologia que batalhavam por um mesmo espaço para existir. Talvez, a guerra que acabasse com todas as guerras (e com todo o restante).

E sim, houve guerras. Vietnã, Iraque, Coreia, Líbia, Congo, e tantos outros países se envolveram em conflitos armados de diferentes escalas, mas em momento algum deixou-se que o “fantasma alemão” fosse esquecido e logo a comunidade internacional trabalhou para que uma cortina geopolítica cobrisse todos os conflitos e evitasse maiores repercussões.

É fato que os Estados Unidos se tornaram os “protagonistas do mundo” desde o fim da URSS. Sua determinação de uma Nova Ordem Mundial passava especialmente por premissas de simples entendimento: paz mundial, avanço das liberdades e proteção à democracia.Diante disso, o que mudou?

As opiniões e articulações necessárias para aprovação de medidas no Conselho de Segurança deram lugar à um discurso primitivo acerca do começo e fim da autonomia. Decisões, outrora colegiadas internacionalmente, agora são pautadas apenas pelos interesses nacionais.

A Ucrânia, país reconhecidamente independente por toda a comunidade internacional, foi invadida e ocupada; NicolásMaduro foi forçadamente removido da presidência venezuelana por uma potência estrangeira; Israel, um país sem fronteiras físicas com o Irã, declarou “guerra total” contra o regime do Aiatolá; e a China, discreta como sempre, segue realizando exercícios militares na sua costa marítima como preparação de uma eventual invasão de Taiwan; Japão busca o rearmamento; Alemanha quer se tornar (novamente) o exército mais forte da Europa. Tudo isso evidencia um isolamento crescente das relações entre os países e um enfraquecimento generalizado da diplomacia.

Países que antes buscavam a colaboração em primeiro lugar, agora agem como predadores dividindo o mesmo ecossistema. Repito: o que mudou?

E, para acabar com o suspense que criei nos últimos três parágrafos, a conclusão lógica que podemos chegar é que:forças, antes opostas ao escalonamento das tensões mundiais e à emergência de novas guerras agora têm um diferente objetivo. “Paz a todo custo. deu lugar à “O que podemos ganhar com a promoção da paz?. O próximo raciocínio dessa série é evidente, e muito perigoso:

Será que a guerra é tão ruim assim?”

É como se toda a coletividade diplomática estivesse acostumada a jogar um “jogo” utilizando de determinado conjunto de regras, que foram respeitadas e até expandidas nos últimos 90 anos (e que funcionaram até aqui) para agora terem seus principais “jogadores” questionando princípios básicos e a o própria essência do que era padrão. Até a diplomacia se tornou líquida,como já alertava Bauman. Sempre em movimento e sem “padrão”, sem estabilidade.

Segundo um estudo publicado pelo Journal of Personalityand Social Psychology (braço de publicações acadêmicas da Associação Americana de Psicologistas – APA, em inglês), cerca de 1 (um) em cada 3 (três) estadunidenses acreditam que o mundo vai acabar ainda dentro de seu ciclo de vida. Isto é, pessoas de diferentes etnias, crenças, níveis de escolaridade e classes sociais, mas todas olhando para o futuro não com incerteza, mas com a certeza do fim.

A sociedade em que vivemos é indubitavelmente uma constante de mudanças e reajustes, em todas as áreas. A tecnologia segue em crescimento, a privacidade virou abstrata e nunca foi tão fácil fazer o bem – ou o mal – como o é hoje.

A “Realpolitik, abordagem política e diplomática essencialmente fincada no pragmatismo e no status quo, morreu. O assassino? Uma Pós-Modernidade que preferiuem seu lugar um novo tipo de entendimento prevalente de internacionalismo: A Política do Medo.