Foram muitas idas e vindas entre João Pessoa e Brasília, ainda nos anos 70 (fase da ditadura militar). Voltei à cidade, em 1977, quando João Pessoa ainda era uma “fazendinha à beira mar”. Estudava no Colégio Águia, Cultura Inglesa e Aliança Francesa. E me envolvi num curso de Teatro organizado por Elzo Franca, onde ensaiávamos a peça Antígona. Tudo acontecia no centro, no antigo prédio da Coex e Edifício Caricé, perto da Lagoa do Parque Solon de Lucena. A experiência era mais um pretexto para a reunião de jovens em pique de criatividade. A peça não saiu, mas a experiência foi formidável e resultou num livreco de poesia.

Ali conheci Juca Pontes, adolescente afoito (com vibe pragmática) de Campina Grande. Ele então leu alguns de meus rabiscos no caderno da escola. Quando, adolescentes, na era repressiva, a dor era grande, mas ainda não era poesia. Juca gostou e propôs fazermos um livro em coautoria. Minha irmãe, Mércia Paiva, não me negava nada que eu pedia e assim bancou o nosso livro Reflexos do Espelho. Naquele tempo havia um forte movimento em torno das artes, teatro, literatura, música, vida cultural efervescente: uma forma de resistência ao regime autoritário. O saudoso Fernando Oliveira revisou os textos e fez uma orelha:

“Escrever poesia não é para todo mundo. Na ‘ars poética’ existe a sensibilidade, mais conhecida como terceiro olho, que os homens normais não possuem. E o poeta encontra raridades neste universo fantástico do qual fazemos parte. (…) Juca Pontes se salienta com sua estrutura sem pretensões, com suas metas traçadas, a fantasia transformada em realidade” (Fernando Oliveira, 1977).

Olavo e Fred Swendsen fizeram a arte de capa e as ilustrações, e o designer Agamenon Travassos fez a diagramação na Editora Grafpan, que havia na avenida Duque de Caxias. E a cereja do bolo: o brilhante Aléssio Toni, professor de Juca Pontes, no Pio XII, generosamente, fez a apresentação:

“Pródiga de poetas e cronistas, João Pessoa mais uma vez se projeta pela expressão humana de quem me parece contar histórias. José Alves Pontes Junior e Cláudio Cardoso de Paiva. São telúricos, como todo artista nordestino: em ambos a mão e o olho apalpam meio de lado, contidos na descoberta das horizontais-verdades-urbanas” (Aléssio Toni, 1977).

O livro foi uma aventura poética juvenil despretensiosa, mas houve o júbilo da realização, numa época em que “tudo contribui para a dispersão mental” (como escreveu Joselita Pereira Bezerra, na época, coordenadora do Colégio Águia).

Já ali se percebe a verve criativa do poeta Juca Pontes ainda adolescente e ligado nas nervuras da prosa cotidiana:

“Precisamos acordar cedo. É hora de ler o jornal. O sapato foi usado, a fita no gravador que escuto, me faz lembrar a bebida que tomei ontem no bar, logo ali, na esquina. O relógio e a conversa irritante dessa velha criatura, não me deixa sentir o sabor de um novo dia. O banho que estava quente me fez acordar o sonho. Eles já se foram. E logo mais terei que ir também”. (Poema Galo de Corrida, Juca Pontes, 1977).

O trabalho tem a característica da inserção de pequenas epígrafes dos amigos, conferindo-lhe uma dimensão comunitária, fraterna cumplicidade com os interlocutores, aspirantes a atores na época:

“Na gaiola das emoções aprisionamos os reflexos de um espelho interior, cujas imagens jamais de apagam” (Élida Soares, 1977)

Reflexos do Espelho foi uma tradução do tempo-agonia da adolescência, afetado pela pulsão hormonal daqueles dias, dramático, irritado, sonhador e também otimista:

“Gostei de ver que a vida pode ter outros significativos / gostei de ver a força de vontade, quando se pode mudar as idéias / gostei de ver que apesar de tudo você encontrou a resposta” (Juca Pontes, 1977).

A obra foi mesmo uma coisa de jovens-aprendizes sonhando fazer poesia, mas Juca Pontes, na eternidade daquele instante poético, já tinha uma intuição refinada, da crítica social, armadilhas do capital, engrenagens tronchas do lema “ordem e progresso”:

“Atrás das máquinas sintetizadoras que não sabem falar. Bombas atômicas que só fazem destruir. Números complexos que só fazem calcular. Do dinheiro que traz ambição. De guerras e fome que continuam matando. Atrás de tudo, há o homem que não sabe mais sentir o vento que passa, que não sabe mais ouvir o rouxinol. Há o homem que não sabe mais nem olhar o ressurgir de uma linda flor” (Juca Pontes, 1977)

Os ventos nos levaram para rumos diferentes e nos encontramos (virtualmente) durante a pandemia. Ele foi o grande artífice que editou o catálogo (do qual participei) da maravilhosa exposição do artista plástico Flávio Tavares, O Claustro (2021), com esmero, dedicação e elegância, aliás, como tudo o que Juca Pontes fazia.

 

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Diário de Vanguarda.