Toda cidade possui homens que aprenderam a existir dentro de molduras.
Ele era um deles.
Tinha trinta e poucos anos, um casamento estável, um emprego respeitável e uma rotina cuidadosamente construída para impedir perguntas. Acordava cedo, respondia mensagens de trabalho antes das sete da manhã, pagava boletos em dia, comparecia aos aniversários da família e publicava fotografias suficientes para convencer o mundo de que a felicidade era uma mobília permanente em sua casa.
Eu o conheci numa noite quente.
Essas noites em que o asfalto devolve o calor acumulado durante o dia e a cidade parece transpirar segredos.
Ele entrou no bar carregando o próprio silêncio.
Não foi difícil reconhecê-lo.
Travestis aprendem cedo a identificar os homens que chegam acompanhados de fantasmas. Alguns carregam culpa. Outros carregam medo. Muitos carregam os dois.
Ele pediu uma bebida.
Depois outra.
Passou quase uma hora observando pessoas que jamais voltaria a encontrar.
Quando finalmente conversamos, percebi que sua voz possuía o cansaço de quem sustentava uma vida inteira sobre os ombros.
Era bonito, mas não daquela beleza vendida nas propagandas.
Havia algo quebrado nele. Uma espécie de rachadura discreta atravessando o rosto.Uma tristeza antiga instalada entre os olhos.
Ao longo dos meses, tornou-se frequente. Sempre depois de determinados horários. Sempre distante dos lugares onde poderia ser reconhecido. Sempre calculando riscos.
Os homens aprendem cedo a calcular riscos.
As travestis aprendem cedo a sobreviver a eles.
Talvez por isso eu enxergasse nele coisas que ninguém mais via.
A esposa conhecia o marido. Os colegas conheciam o profissional. A família conhecia o filho exemplar. Eu conhecia o homem que aparecia quando todas essas personagens adormeciam.
Ele falava pouco sobre desejo. Falava mais sobre ausência. Ausência de si.Ausência de escolhas. Ausência de coragem.
Contava histórias da infância, dos sonhos abandonados, das pequenas renúncias que se acumularam ao longo dos anos até formarem uma espécie de prisão doméstica.
Nada aconteceu de uma vez. Ninguém acorda prisioneiro. A cela é construída lentamente. Um tijolo de expectativa. Outro de medo. Outro de conveniência.
Quando percebe, a pessoa já não alcança a porta.
Ele traiu. Muitas vezes. Traiu a esposa.Traiu promessas. Traiu acordos.
Mas havia uma traição anterior a todas as outras.A mais profunda. A mais dolorosa. Traía a si mesmo todos os dias.Traía o próprio desejo. Traía a própria verdade. Traía a possibilidade de existir sem pedir desculpas.
Enquanto isso, o mundo continuava premiando sua performance.
Os elogios chegavam. As fotografias recebiam curtidas. Os parentes admiravam sua estabilidade. Ninguém suspeitava que parte daquela felicidade dependia de fugas cuidadosamente planejadas. Ninguém imaginava quantos quilômetros ele percorria para respirar.
Às vezes eu observava sua expressão depois que fazíamos amor. Era um rosto estranho. Não havia exatamente alegria.Também não havia arrependimento. Existia um intervalo. Existia um hiato de liberdade e essência sem rótulos. Uma espécie de descanso. Poucos minutos durante os quais ele parecia habitar o próprio corpo sem conflitos.
Depois o celular vibrava. A realidade retornava. As máscaras voltavam ao lugar. E ele partia...
Sempre partia.
Até a noite em que chegou diferente.Sem desculpas. Sem histórias prontas. Sem a necessidade de sustentar personagens.Sentou-se ao meu lado... (Eu ouvia Joyce Alane “Tece a tua pele em mim, que eu tateio a tua juba e o teu corpo/ Risca minha parede outra vez, vem me visitar de novo”) e permaneceu em silêncio, compartilhando aquela música comigo.
Lá fora, a cidade seguia produzindo suas normalidades.
Dentro dele, algo finalmente desmoronava. (Ou se erguia?!)
– Estou cansado – disse.
Era uma frase simples. Mas carregava anos. Anos de encenação. Anos de vigilância. Anos tentando corresponder a uma ideia de homem que nunca lhe serviu.
Pela primeira vez, não falava sobre fugir.Falava sobre permanecer. Permanecer diante do espelho. Permanecer diante das próprias verdades. Permanecer diante dos escombros.
Não sei o que aconteceu depois. As crônicas raramente oferecem finais definitivos. A vida tampouco.
Sei apenas que naquela madrugada ele saiu pela porta sem a pressa habitual. E eu fiquei observando sua silhueta desaparecer na rua.
Pensei em quantos homens atravessam os dias sufocados pela obrigação de parecer inteiros. Pensei em quantas vidas são consumidas pela manutenção de aparências.Pensei, sobretudo, na violência de um mundo que ensina algumas pessoas (homens, em sua maioria) a esconderem a própria felicidade para merecer pertencimento.
A cidade amanhecia.
Os ônibus começavam a circular.
As padarias abriam as portas.
E, em algum lugar entre a noite e o dia, um homem de trinta e poucos anos tentava descobrir quem era quando ninguém mais estava olhando.
Por Bia Crispim: Professora, escritora e colunista. Doutora em Literatura Comparada “Bibliófila” Travesti Militante LGBTQIA e mãe de gatos.
MULHERIO DAS LETRAS
Coletivo literário feminista que reúne escritoras, editoras, ilustradoras, pesquisadoras e livreiras, entre outras mulheres ligadas à cadeia criativa e produtiva do livro, no Brasil e no exterior, a fim de dar visibilidade, questionar e ampliar a participação de mulheres no cenário literário.