Estreio essa coluna escrevendo aqui da Índia numa temperatura de três graus negativos nos Himalaias. Estou numa peregrinação desde janeiro quando saí de casa, em Rio Branco (Acre), e fui para João Pessoa. Depois da Paraíba, segui para o Rio de Janeiro e São Paulo de onde viajei para a Índia.

Estou há três meses por aqui e passei por alguns dos lugares mais sagrados da Mãe Índia. Prayagraj, no estado de Bihar, onde estive por alguns dias participando da Magmela, um encontro espiritual que reúne um milhão de pessoas. Sadhus, Gurus, sacerdotes, yogues e místicos de todos os lugares da Índia. Em Prayagraj existe um Sangham muito poderoso, o encontro de três rios sagrados para os hindus, Ganges, Yamuna e Saraswati. É auspicioso banhar-se no Sangham. Na cultura védica acredita-se que essas águas são capazes de purificar os karmas negativos de uma pessoa de várias encarnações.

O Interessante é que para os hindus, a questão reencarnacionista é algo natural. Tratam a projeção para as próximas vidas e a limpeza dos pecados das passadas cotidianamente. Existem ainda muitas histórias de homens que alcançaram uma grande evolução espiritual e que para continuarem as suas missões simplesmente trocaram de corpo.

Giri Nari Baba, um santo indiano da Linhagem Sachcha, por exemplo, viveu mais de 400 anos e trocou de corpos várias vezes. Também tem a história de Babaji um outro yogue que se mantém em meditação nas cavernas dos Himalaias e quando precisa troca de corpo se mantendo sempre jovem.

Isso pode parecer espantoso, mas a morte na Índia é tratada com muita naturalidade. O que morre é o corpo e a personalidade que desaparece. Mas o Ser que habita os corpos é imortal. Braman, Parmatma, Isvara, existem muitos nomes, mas na essência somos nós mesmos navegando pela eternidade através de muitas vidas. E não há como escapar das ações praticadas. Através de práticas espirituais é possível minimizar os efeitos kármicos, mas eliminar só mesmo recebendo a graça de alguém iluminado que na Índia chamam de Guru.

Aliás esse é um ponto importante para entender a diferença entre as religiões orientais e ocidentais. No hinduísmo e no budismo o conceito de Deus é interno. As práticas meditativas te levam para perceber Deus dentro de você. So Ham, significa Eu sou Isso, ou seja, eu sou Deus.

Essa consciência do Deus interno está longe de representar uma arrogância em relação à Criação. Ao contrário, a responsabilidade de cada um aumenta. Sempre lembrando da Lei do Karma, toda ação desencadeia uma reação, que pode ser positiva ou negativa.

Mas ainda fazendo uma reflexão da morte do ponto de vista hindu eu visitei nessa peregrinação Varanasi ou Kashi, a cidade mais antiga do planeta. Os hindus acreditam que o fluxo do Rio Ganges nesse lugar conduz as almas diretamente para a iluminação na próxima vida. Assim muita gente pressentindo a morte vai para Varanasi. Isso fez com que a cidade se tornasse o maior necrotério do mundo. Lá existem muitos crematórios que funcionam 24 horas por dia.

Os corpos são lavados com as águas da Ganga (Ganges) que é uma deusa poderosa, em seguida incinerados e as cinzas jogadas no rio. É possível sentir o cheiro dos cadáveres queimando no ar da populosa cidade no estado indiano de Bihar.

Como viajei praticamente três meses na Índia e visitei muitos lugares no Norte e no Sul terei muitas histórias para contar na próximas colunas. Mas quero encerrar esse texto com uma reflexão.

Peregrinar é muito diferente de fazer turismo. O objetivo não é se divertir e postar fotos nas redes sociais, mas se aprofundar no autoconhecimento. As passagens externas de lugares sagrados te conduzem com mais facilidade para o seu interior. É como diz meu amigo Prem Baba: “Deus está em todos os lugares, mas é fato que existem lugares onde é mais fácil sentir essa Presença”. E eu completo: só existe um lugar para se encontrar com o divino, dentro de nós mesmos. A peregrinação ajuda a despertar essa lembrança de quem somos verdadeiramente e qual é a nossa natureza divina.

Jay Jay!

 

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Diário de Vanguarda