Crédito: Ricardo Stuckert

Eu vi Luis Inácio Lula da Silva de perto. 80 anos, em cima de um carro, cercado por uma multidão que gritava o seu nome apaixonadamente. A primeira vez que o vi foi em situação semelhante, ele disputando contra Fernando Collor de Melo, que então se dizia o caçador de marajás ( era o jargão que ele usava para se referir a funcionários públicos ). Chorei presenciando a energia, a empatia, a resistência desse homem desde muitos anos. E veio um filme em minha cabeça. É sobre isso que eu quero escrever, lembrando uma frase de Vianinha: Um pouco de história não faz mal a ninguém.

E essa história começa em 13 de maio de 1888. Libertação dos escravizados. Assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel. Não foi um ato de bondade da princesa. Foi pressão dos escravizados, organização e luta durante 300 anos. Os ex-escravizados foram postos na rua, sem direito a coisíssima nenhuma. Nenhuma recompensação pelos 300 anos de trabalho forçado, humilhação e maus tratos.

Acontece que no Brasil havia uma quantidade enorme de pretos. E isso incomodava uma elite escravocrata que temia um país dominado por pretos. Solução: traz os brancos da Europa. Vieram alemães, italianos, poloneses que se estabeleceram no sul do país, que receberam terras para construir cidades, fazendas, enfim, uma reforma agrária que beneficiou os imigrantes que vieram pra cá fugindo da fome e da miséria.

Enquanto isso, os pretos ficaram nas ruas, mendigando, fazendo pequenos trabalhos a troco de quase nada para não morrerem à míngua.

1889: os militares destituem a nobreza, expulsam a família real, inauguram a República: foi o primeiro golpe militar. Mudaram o regime, mas conservaram para si e para os políticos que os apoiavam os privilégios da corte (que ainda estão aí).

1930: O segundo golpe cívico-militar colocou Getúlio Vargas no poder. Getúlio logo tratou de criar uma ditadura cruel, que prendeu, torturou e matou os comunistas (fantasmas dos militares desde então). Mas não apenas comunistas. Todos aqueles que se opunham ao poder absoluto de Getúlio foram presos e torturados. Entre eles, Luis Carlos Prestes. Entre 1924 e 1927, o Cavaleiro da Esperança liderou uma marcha militar que atravessou o Brasil de uma ponta a outra sem nunca ter sido derrotada (feito semelhante ao de Mao Tsé Tung entre 1934 e 1935, na China). Prestes não conseguiu derrubar o regime, e foi preso em 1935.

Em 1943, Getúlio Vargas, ditador, cria a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), protegendo o trabalhador que antes não tinha nenhuma garantia. Essa Lei vige até hoje. O que ela determina?

1 – Salário mínimo

2 – Jornada de trabalho de 8 horas diárias (antes chegava a 12 h ou mais) e 44 horas semanais.

3 – Férias remuneradas de 30 dias.

4 – 13º salário.

5 – Horas extras.

6 – Descanso semanal remunerado.

7 – Licença maternidade de 120 dias.

8 – Aviso prévio e verbas rescisórias.

9 – Proteção contra discriminação e condições de trabalho ilegais.

10 – Carteira de Trabalho assinada.

11 – Seguro-desemprego.

A ditadura de Getúlio Vargas caiu em 29 de outubro de 1945.

Apesar de ditador, Getúlio Vargas foi amado pelo povo que pela primeira vez na história do Brasil encontrou quem o protegesse. Por causa disso, voltou ao poder em 31 de janeiro de 1951. Os militares insatisfeitos tramavam novo golpe. Em 3 de outubro de 1953 Getúlio Vargas criou a Petrobrás, empresa pública para proteger o petróleo brasileiro e o tirar das mãos dos Estados Unidos da América que o ambicionava. Pressionado pelo Congresso e pelos militares, Getúlio Vargas disparou um tiro contra o seu próprio peito, e segundo a carta que ele deixou antes de se matar, “saio da vida para entrar para a história”.

O golpe militar só aconteceria em 1º de abril de 1964, depois que o então Presidente João Goulart, num discurso histórico na Central do Brasil no Rio de Janeiro em 13 de março de 1964. O que propôs João Goulart?

1 – Reforma agrária (a única até então foi dada aos europeus no século anterior no sul do Brasil).

2 – Justiça Social: reduzir a pobreza e melhorar as condições de vida dos trabalhadores.

3 – Reforma de base: mudanças tributárias, agrárias, trabalhistas.

4 – Democracia e participação popular: defendia o voto dos analfabetos (que eram muitos e não votavam). Lembrar que as mulheres só tiveram direito ao voto em 1930.

5 – Soberania Nacional: controle das refinarias de petróleo pelo Estado Brasileiro.

Em 13 de dezembro de 1968, o general Artur da Costa e Silva, diante da resistência popular à ditadura, promulgou o AI-5, que intensificou a repressão política, fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos, suspendeu direitos políticos, estabeleceu a censura às artes e aos jornais, aprofundando de forma ainda mais violenta o golpe de 1964.

Em 1978, em plena vigência do AI-5, um operário com um dedo manietado aos 17 anos de idade, migrante nordestino, de onde saiu do sertão de Pernambuco em cima de um pau-de- arara junto com a mãe e os irmãos, todos crianças e adolescentes, então diretor do sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista, liderou a primeira greve que fez a ditadura estremecer. E o que queria aquele ousado rapaz semi-analfabeto? Reajustes salariais e melhores condições de trabalho.

Em 1979 novas paralisações reuniram dezenas de milhares de metalúrgicos.

Em 1980 nova greve culminou com a prisão de Lula e de outros dirigentes sindicais.

Ao sair da prisão, Lula articulou a criação do Partido dos Trabalhadores.

As greves do ABC estimularam a resistência popular, e greves pipocaram por todo o país, dando início a derrocada da ditadura militar, que somente veio a acontecer em 15 de março de 1985.

Em 5 de outubro de 1988 foi proclamada a Constituição Federal, que Ulysses Guimarães chamou de “Constituição Cidadã”, por proteger o povo contra o Estado (é essa Constituição que está em risco agora, com a ameaça de uma nova ditadura, esta agora tentada pelo voto popular).

Em 15 de novembro de 1989 aconteceu a primeira eleição direta para Presidente da República, vencida por Fernando Collor de Melo, com a providencial ajuda da TV Globo, que editou o debate entre ele e Luís Inácio Lula da Silva, favorecendo o candidato “caçador de marajás”.

Foi aí que eu vi Luís Inácio Lula da Silva pela primeira vez. Eu, um jovem universitário, fiquei pasmo com a capacidade daquele homem de liderar uma multidão. Fiquei hipnotizado pela sua empatia com o povo.

Assim mesmo, Lula perdeu. Em 1994 e em 1998, perdeu para Fernando Henrique Cardoso. Nunca contestou o resultado das urnas, sempre congratulou o vencedor.

Em 2002 derrotou José Serra (que o congratulou) e começou a implantar a justiça social. Primeiro, criando universidades e regras de compensação para que a população preta (relembro: jamais favorecida, embora tenha criado a riqueza econômica e cultural do Brasil) e pobre estudar e melhorar sua condição de vida. Criou programas de apoio sociais, como Minha Casa Minha Vida, Bolsa de Estudos para pretos e pobres, Bolsa Família para ajudar as famílias de baixa renda, e dezenas de outros programas de apoio social. Luís Inácio Lula da Silva tirou o Brasil do mapa da fome pela primeira vez em 500 anos. É o maior estadista brasileiro de todos os tempos, respeitado e reconhecido no mundo, comparado a líderes como Nelson Mandela (27 anos preso por lutar contra o apartheid na Africa do Sul), Martin Luther King (assassinado no EUA por lutar contra o apartheid daquele país), Mahatma Gandhi (assassinado depois de libertar a índia da dominação inglesa com a sua política de não violência, mas de resistência moral). Do meu ponto de vista, todos foram gigantes, mas Lula é maior.

Na Presidência da República pela terceira vez, retirou o Brasil do mapa da fome pela segunda vez depois de um governo desastrado de Jair Bolsonaro. Articulou o Brics junto a Russia, a China, Índia e África do Sul. O Brics, por sua vez, usando a experiência brasileira do pix, articula o comércio mundial sem que nenhum dólar seja usado na troca comercial entre os países membros, o que põe em cheque a economia dos EUA, que ganha com o comércio mundial, venda ou não venda qualquer coisa, de um alfinete a um míssil supersônico. Não apenas isso. Com o Brics os EUA perdem a capacidade para chantagear outros países, velha prática de pressão comercial. Além do mais, os EUA possuem uma dívida pública impagável. Sem o dólar como lastro para a economia mundial, os EUA mergulharão num crash ainda pior do que houve em 1930 naquele país.

Hoje eu vi o Lula pela segunda vez, no meio do povo cantando o seu nome, e ele, aos oitenta anos, lutando bravamente pela democracia, defendendo o povo e a Constituição, a soberania nacional contra milicianos entreguistas, bandidos mal disfarçados que articulam o fim da democracia usando os próprios instrumentos da democracia.

Uma última reflexão: onde se concentram os neo-nazistas? No sul do país, naquela gente que chegou aqui na miséria, ganhou o que não merecia, e agora articula golpe de Estado. Onde se concentra a força popular? No Nordeste, onde estão os pretos, os indígenas e a raiz da cultura brasileira. Quais as questões postas pela extrema direita? Fim da Constituição Cidadã, fim dos direitos trabalhistas, entrega da Petrobras para empresas norte-americanas, entrega dos minerais raros que são a nova riqueza do século XXI.

Um pouco de história para situar o presente com o passado não faz mal a ninguém. Ao contrário, ajuda a esclarecer o que está em jogo nas eleições brasileiras de 2026. E lembrando Paulo Pontes: a história não se constrói do nada. O que acontece hoje tem uma profunda raiz com o passado. Mas, para não ser pessimista, quero lembrar do Belchior: O novo sempre vem.