Nos últimos anos tem sido recorrente pontuar a polarização política no Brasil como algo irremediável e sem saída, como se o Centro, e o bom senso, tivessem desaparecido do espectro ideológico e restado apenas o radicalismo e o ódio a permear as campanhas políticas e os debates. Mas não é bem assim. Se considerarmos que nem a Direita nem a Esquerda elegem Presidentes no Brasil sozinhas, isso significa que o Centro e seus 50 milhões de eleitores, mais de quase 1/3 do nosso eleitorado, continuam importantes e são quem realmente decidem as eleições em nível nacional. Mas muitos setores da imprensa têm ignorado isso, alimentando a polarização, enfatizando sempre as candidaturas principais e ajudando a dividir o Brasil politicamente em duas frentes extremas e antagônicas, num cabo de guerra que cria um ambiente hostil, pobre em propostas e desencorajador de possíveis alternativas majoritárias centristas.

Quando o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos faleceu em 2014, a polarização política no Brasil não era ainda algo tão marcante quanto agora. Com o desaparecimento precoce de uma promessa política sensata, com 80% de aprovação no governo, o Brasil perdeu, naquele momento, sua maior referência política que representava bem o Centro e que prometia equilibrar melhor o jogo democrático, que contribuiria para melhorar o nível dos debates e propostas. Sua ausência trouxe um grande prejuízo à política nacional e, na falta de quem preenchesse essa lacuna, o debate entre apenas dois antagonistas passou a limitar-se a acusações mútuas, estimulando o ódio entre seus defensores, presente na cena política nacional há 12 anos. Esse ambiente polarizado tem levado as pessoas ao fanatismo que, na política, além de idiota, estimula sentimentos não racionais, indo do ódio à paixão, puxando os discursos para baixo, numa postura maniqueísta onde os argumentos se limitam a apontar o que o adversário tem de pior em detrimento das pautas que realmente interessam. O avanço nos debates que poderia trazer ganhos para toda a população só nasce a partir da convergência de propostas com contribuições vindas de vários partidos e de várias frentes ideológicas. O outro lado dessa convergência é a secessão, a divergência e o sectarismo com o fim dos diálogos. É o que se tem visto ultimamente.

O Centro, como opção sensata à polarização, não só existe como é numeroso. A prova disso é a soma dos votos brancos, nulos e abstenções verificados nas últimas eleições presidenciais realizadas, principalmente no segundo turno e que chega a 25%. Some-se a isso o famigerado “voto útil” – daqueles de centro esquerda e centro direta – que resistem em anular seu voto – e temos um arcabouço eleitoral que viabilizaria uma terceira ou mesmo uma quarta via. O que faltam são nomes fortes com chances de irem para um segundo turno e que tivessem um “empurrão para o bem”, de setores da imprensa. A sensatez na política ainda sobrevive, esperando apenas por personagens que arrebatem aqueles 40% do eleitorado que está cansado de anular seu voto, se abster ou de ter de decidir entre duas correntes que já deram o que tinham de dar, inclusive munição ao adversário, dor de cabeça ao Supremo e vergonha aos sensatos e honestos eleitores. O Brasil merece mais e melhores.