Em macroeconomia, o endividamento externo ou o déficit público de um país, embora seja permanentemente administrável, deveria ser encarado com mais responsabilidade. Não é bem o que ocorre, mas há explicação.

É que a gravidade, ou não, desta realidade depende da capacidade de geração de riquezas deste ou daquele país devedor, da sua competitividade, da produção de bens, da sua relação de trocas com outras nações, da estabilidade de sua moeda, de sua pauta de exportação, etc. Porque é disso tudo que dependerá seu poder de atrair investimentos e assim poder rolar sua dívida pública (externa e interna), de forma quase perene, como tem feito a maioria.

Muitos países, mesmo com dívidas acima de 100% do seu PIB, não encontram dificuldade de rolarem seus débitos em razão do dinamismo da própria economia e do seu poder de atrair financiadores privados: seus próprios bancos ou bancos estrangeiros. Os Estados Unidos, por exemplo, tem a maior dívida nominal do mundo e uma das maiores em relação ao PIB (120%). Dívida de mais de 1 século e quase ninguém toca nesse assunto por lá, como se dever já fosse inerente à natureza de sua economia. Ora, se os bancos credores, que são quem deveriam reclamar o pagamento não o fazem, as pessoas e governos muito menos o farão. Os Bancos querem seus juros, os serviços da dívida e pronto.

A dívida brasileira, por sua vez, é próxima a 80% do PIB e o Brasil também tem relativo poder de atrair financiadores com uma boa taxa de juros. A dívida pública aqui é rolada com a venda dos títulos públicos no mercado financeiro, mas isso tem um alto custo: o pagamento dos juros da dívida compromete boa parte do orçamento da União. Some-se a isto as contas públicas permanentes, os gastos do governo com pessoal nos 3 Poderes e uma máquina pública inchada e pouco eficiente. Ainda assim, apesar dessa pouca austeridade, o Brasil segue rolando sua dívida com os credores, por vezes aos trancos e barrancos, espremendo o orçamento, é verdade, mas há tempos não precisa recorrer ao FMI para honrar esses compromissos. No entanto, para um alívio maior no orçamento e nas contas públicas, seriam necessárias reformas administrativa, fiscal e previdenciária que iriam de encontro aos interesses corporativistas de quem bem conhecemos.

Como visto, os déficits públicos, em escala global, fazem parte da contabilidade fiscal de qualquer país; são quase institucionais. Quitá-los levaria anos e exigiria cortes de investimentos em muitas áreas e isso não faz parte dos planos de nenhum governo. Ninguém quer sacrificar outras realizações de sua gestão para pagar uma dívida que vem de governos anteriores há décadas, ou mesmo séculos, ainda mais se até mesmo os credores não fazem questão de recebê-la. Melhor mesmo empurrar com a barriga.