Sem um transporte público de qualidade que atenda plenamente a população, o brasileiro, há anos, fez a opção pelo transporte próprio, individual. Com o tempo, a proporção de veículos por habitantes só tem aumentado e os resultados estamos vendo: são centenas de quilômetros de engarrafamento nas grandes, e agora também nas médias cidades do país todos os dias úteis. O total da frota nacional não para de crescer e já alcança a marca de 125 milhões de veículos automotores no país, ou seja, 12 veículos para cada grupo de 21 pessoas ou 1,2 veículos para 2 habitantes.

Na Paraíba já são cerca de 1.800.000 veículos (carros, motos, vans, ônibus e caminhões) para 4.170.000 habitantes, o que equivale a 2 automóveis para 4. E dentre as cidades do estado com mais automóveis está Cajazeiras, na quinta posição em números absolutos, mas em primeiro lugar na relação veículo/habitante. Na nossa cidade são quase 43 mil veículos (dados de outubro/25) para 67 mil pessoas. Ou seja, 0,64 veículos para cada habitante, acima, inclusive, da média paraibana e nacional. Esse número se torna mais espantoso quando voltamos 20 anos no tempo e vemos que Cajazeiras em 2006 tinha apenas 11 mil veículos para 40 mil pessoas. Um aumento da frota bem acima do crescimento populacional. Quem aqui vive já percebe isso nas ruas apinhadas de carros e motos. Ruas, cujo desenho de uma cidade que cresceu sem essa preocupação, não ajudam na mobilidade. Muitas vias são irregulares, estreitas, com muitas ladeiras e quebra-molas. Outros logradouros são descontínuos e exigiria pulso firme da Prefeitura para recorrer à Lei que faz prevalecer o interesse público sobre o privado e desapropriar (e indenizar, claro) imóveis que impedem a ligação de uma rua à outra. Podemos pegar outro exemplo: o bairro de Mangabeira, em Joao Pessoa, projetado nos anos 80 para abrigar 50 mil pessoas e hoje conta com quase 100 mil habitantes e uma frota de mais de 20 mil veículos. Bairro popular, projetado como se os seus moradores nunca fossem adquirir um veículo. Com apenas duas avenidas principais e estreitas para fluxo e contrafluxo, transitar por Mangabeira hoje se tornou exercício de paciência.

Como se percebe, o aumento da frota em Cajazeiras não é isolado, embora acima da média, é verdade. Esse fenômeno é verificado na maioria das cidades brasileiras, mas, no nosso caso, o que estaria por trás disso? Aumento do nosso poder aquisitivo? Seria o efeito pós criação das novas faculdades e cursos superiores na cidade? Dinheiro da indenização pela transposição? No Brasil e em quase todo o mundo, a relação veículos/habitantes sempre foi vista como indicador econômico e social, pois comprar um veículo requer dinheiro e alguma estrutura financeira que banque o custo com manutenção. Sendo assim, podemos dizer que nossa economia não vai tão mal quanto querem fazer parecer alguns e as causas certamente estão dentre as sugeridas. Mas, seja qual tenha sido a causa desse “fenômeno”, fiquemos expertos a ele e acompanhemos seus desdobramentos. Excesso de veículos nas ruas atenta contra a qualidade de vida. Que o poder público municipal comece a pensar em soluções para melhorar a mobilidade aqui em Cajazeiras, como a desapropriação e demolição de alguns imóveis (para ligação de ruas) que melhorariam o fluxo. Mais veículos estão a caminho. Abram alas, digo, as ruas.