Não nos iludamos: quem decidiu a eleição foi o Centro. Ninguém se elege Presidente da República no Brasil sem os votos do Centro. A polarização existe, mas isso não quer dizer que todo o eleitorado brasileiro está dividido apenas em duas correntes políticas como ocorre nos Estados Unidos. Formado por pessoas, em geral moderadas, e até certo ponto conservadoras, os centristas constituem entre 1/4 e 1/3 do eleitorado no Brasil, são mais comedidos e não aceitam ideias extremistas. Isso vale para a Direita e para a Esquerda. Os centristas são cerca de 40 milhões de eleitores ou mais e são eles quem tem decidido eleições presidenciais no Brasil desde a redemocratização.
Contudo, como tem ocorrido em todas a eleições para Presidente decidida em dois turnos, no segundo o Centro precisa se definir entre os dois finalistas, muito embora muitos anulem seu voto ou se abstenham da votação. Mas nos atendo à eleição deste ano, primeiro o Centro garantiu que haveria dois turnos para, no segundo, decidir em quem votar pra valer. É certo que muitos deles viraram seus votos para Lula de “última hora”, haja vista que a menor abstenção, por si só, não explica a vitória do petista sobre o fujão. Também é verdade que a grande rejeição aos dois candidatos em 2026 continua explicando uma nulidade/abstenção de cerca de 22% dos votos. Por outro lado, a ausência de um nome de peso do PT para 2030 e o desgaste da família Bolsonaro nestas eleições, fortalece a possibilidade de candidatura de Centro para o próximo pleito presidencial e isso é o que muita gente espera. Não vemos a hora dessa polarização acabar e as pessoas pararem de ter de escolher um candidato por ódio ao outro.
Mas até lá não esperem milagres quanto a governabilidade, metas, pautas e demandas. A vitória que se comemorou foi termos afastado o simpatizante de fascistas e milicianos do Poder e de termos salvado a Democracia. As contas públicas gritam por reformas e, mais do que nunca, o governo federal precisará do Centro (Centrão mesmo) para governar o país com orçamento estourado e uma dívida pública de 85% do PIB. Haverá negociações à base do “toma lá da cá”, concessões à pauta da Direita e liberação de emendas em troca de aprovação de projetos da situação. Virão também muitos cortes no orçamento, mas que ocorram proporcionalmente em todas as áreas (inclusive Judiciário, Legislativo, MP e Tribunais de Contas), e não apenas na Educação e Saúde como costuma ocorrer. Que seja um governo que, se tem de cortar na carne, que corte na de todos e que o pau que bata em Chico também bata em Francisco. Os menos favorecidos e sem voz não podem e não devem pagar a conta pela falta de austeridade fiscal governamental que compromete as contas públicas há décadas.
Dermival Moreira
É bancário aposentado, com Licenciatura em Geografia na UFPE e é autor de “Identidade e Realidade – artigos e crônicas”.