Como será envelhecer na sociedade contemporânea, uma sociedade que privilegia as pessoas mais jovens e produtivas, em detrimento das mais velhas, consideradas improdutivas, na qual o belo, o magro são valorizados e exaltados pelos meios de comunicação, relegando as pessoas idosas cada vez mais à segregação?

Essa reflexão, fundamentada nos estudos da antropóloga Guita Debert, revela o papel destinada as pessoas idosas na nossa sociedade.

Estamos vivenciando, neste momento, uma avalanche de notícias sobre as pessoas idosas, principalmente por dois motivos. O primeiro é a eleição de um presidente do Brasil com 80 anos. Apesar de sua trajetória dizer o contrário, o etarismo ainda está presente na sociedade, desde o seu adversário, que colocou em dúvida sua audição, até tantas outras pessoas que acreditam que o lugar da pessoa idosa é em um cantinho tranquilo, apenas vendo a banda passar.

O fenômeno perverso do idadismo é propagado nos mais diversos espaços, seja nas redes sociais, seja na vida cotidiana. Em 2022, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) lançou o Relatório Mundial sobre o Idadismo. Esse documento apresenta as diversas formas de preconceito, rejeição e discriminação contra as pessoas em razão da idade.

Até quando? Será que a sociedade não percebe que demos um grande salto na história da humanidade ao ampliarmos a expectativa de vida e, principalmente, ao conquistarmos a possibilidade de viver mais anos de forma produtiva, saudável e com qualidade de vida? Esse é o desejo de todos nós!

Por que desvalorizar a velhice, se, desde que nascemos, já começamos a envelhecer? Pedro Paulo Monteiro, autor que estuda o envelhecimento, descreve: “Estamos, desde a concepção, envelhecendo e vivendo, vivendo e envelhecendo, nunca sendo os mesmos, porque envelhecer é um processo contínuo de transformação do ser humano”.

Por outro lado, em todos os lugares do Brasil, pessoas idosas, nas mais diversas faixas etárias e condições de vida, foram às urnas e tiveram um papel fundamental na eleição presidencial, no segundo turno.

E o que as levou a fazer isso? Muitos dizem que foram impulsionadas pelos jovens. Será? As pessoas mais longevas, com 80 anos ou mais, sofreram na pele os efeitos da ditadura militar, tanto no campo quanto na cidade. Foram anos sombrios, que permaneceram em suas memórias e, marcaram suas próprias vidas, com exílios e desaparecimentos de filhos e amigos.

Temos consciência das “várias velhices” existentes em nosso país. Por mais que tenhamos avançado nas políticas públicas, hoje _ Estatuto da Pessoa Idosa — como um marco na garantia dos direitos dessa população, ainda precisamos evoluir em muitas áreas: aposentadoria, mobilidade, proteção e prevenção da violência, criação de centros-dia, Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPIs), cidades acessíveis e transportes adequados. São tantas as necessidades e tantos os desafios!

Mas, hoje, o que queremos dizer é que, apesar de todos os obstáculos, as pessoas idosas souberam fazer a revolução: a revolução do desejo, da democracia e da vida.

Vi, em cada vídeo, pessoas idosas seguindo para as urnas em cadeiras de rodas, nos braços de outras pessoas, em andadores ou a pé, com seus passos curtos, mas firmes, para salvar o país das garras do fascismo.

Lembrei-me do poeta Antonio Machado: “Caminhante, não há caminho; o caminho se faz ao andar”.

Elas fizeram a revolução sem armas, sem ódio, sem alvoroço, simplesmente caminhando, voando, confiantes, serenas e leves.

E nos deram uma lição de amor ao próximo, ao outro, às futuras gerações, à sua história e à sua memória. E o amor venceu.

Para finalizar, peço licença ao filósofo Baruch Spinoza, a quem se atribui a seguinte reflexão: “Só existe um afeto mais potente que o ódio. Esse afeto é o amor”.

E viva a democracia! E viva as velhas e os velhos deste país!

 

AUTORIA

Meine Siomara Alcântara