Venho acompanhando a poesia de Aline Cardoso desde 2019, quando ainda estava na graduação e iniciava minha trajetória na pesquisa científica. Meu primeiro contato ocorreu por meio do livro A Proporção Áurea do Caos (Escaleras, 2019), cuja leitura é atravessada pela corporeidade feminina. Neste livro, a voz poética inscreve um corpo que sussurra os versos, como uma serpente que se enrodilha e sibila o seu desejo, sua dor, sua fome e sua pulsão de vida.
Em uma entrevista concedida à Macabéa Edições (2020), Cardoso explica que a obra reúne diferentes fases do seu amadurecimento enquanto escritora, tendo em vista que foi escrito em um período de dez anos. Um aspecto que me chama atenção na entrevista é o relato da poeta de que, durante a semana de lançamento do livro, teve uma crise de garganta, que quase a fez perder a voz. Essa situação, embora não tenha relação direta com a obra, para mim, produz uma interessante ligação com o livro, como se, de algum modo, tivesse convocado a poeta a realizar uma leitura pelo sibilar, de forma baixa e cortante, como é evidente em seus versos. Vejamos “SIBILA II”: “Ácida e serpente/ estrangulando/ os teus sussurros” (Cardoso, 2019, p.38); ou os versos de “BRISA”: “Desembaraça os teus cabelos/ no meu colo, me sorri breve./ enfeita-me o dia/ com/ os/ teus/ suspiros/ traiçoeiros.” (2019, p.49). Nele, a presença do “s” assume essa sonoridade próxima ao sibilar, principalmente pela recorrência de uma sequência de palavras com a consoante, algo forte na obra poética. É valido salientar que a primeira obra de Cardoso registra o corpo que deseja, que gesta, que recupera a memória, que resiste e registra a dor, categorias que ficaram cada vez mais fortes na sua escrita, como veremos a seguir.
A obra Harpia (Triluna, 2020) traz no título uma imagem que pode remeter tanto à mitologia grega, visto que as harpias eram criaturas com rosto de mulher e corpo de ave, associadas aos ventos, quanto à ave de rapina da América, que tem asas largas e garras enormes, produz assobios e seus sons rompem o silêncio de forma mais aguda e potente, mas não muito estridente. Ou seja, a harpia, enquanto imagem poética, pode ser interpretada como a liberdade e a ferocidade femininas que não se mostram de maneira dócil, mas que assume sua capacidade de (re)agir e confrontar aquilo que tentar restringi-la. Dessa maneira, a ferocidade de harpia deve ser vista como um corpo feminino que se afirma e reivindica seu espaço dentro e fora do poema. Nos versos, a voz poética deixa nítido que “é da minha natureza/ arder/ inflamar/ incendiar/ posto que sou fogo” (2020, p.22), essa sequência dos verbos intensifica a imagem do fogo, que aqui sugere um movimento de expansão da própria força, o fogo não é destruição, visto que passa a ser transformação: “[…] transformo/ tudo o que for/ líquido” (p.22).
No livro, encontramos o poema “Eco (para Marielle Franco)”, que estabelece uma relação de memória e resistência, leiamos um excerto: “tua semente/ fecunda germinará/ através dos tempos/ r e s i s t i r e m o s” (p.50). Em seus versos, a eu-lírica além de registrar a permanência da voz da vereadora carioca Marielle Franco, reverberando também sua própria resistência, mostra o movimento de expansão com o verbo “germinará”, termo que é ainda mais ampliado pela dimensão temporal do próximo verso. Ademais, o último verso, cuja disposição gráfica está separada, causando um prolongamento na leitura, evidencia que se trata de uma voz plural, assim, é uma resistência coletiva. Pensando nisso, observamos que o “eco” não é meramente o ato de repetição da voz, mas a capacidade de uma voz alcançar outras vozes e adquirir novas possibilidades de resistências. Nos versos de “Marias”, esse coletivo é mais evidente: “[…]as Marias que vieram antes de mim/ aprenderam a escrever seus nomes/ mesmo sem saber ler/ o meu grito se entrelaça/ às liberdades negadas a todas elas,/ eu sou a nossa pequena revolução[…]” (p.79), notamos que a voz poética é herdeira de outras mulheres, e sua voz e resistência são atravessadas pelas experiências dessas mulheres, essa revolução é um modo de ecoar as vozes das que vieram antes.
Chegamos à Aldrava (2024), quarto livro de poemas de Cardoso, publicado pela Editora Triluna. Se em A Proporção Áurea do Caos (2019) a poética se constrói pelo sibilar, e em Harpia (2020) a voz poética, em alguns versos, passa a registrar sua voz ligada ao eco de outras vozes, trazendo uma resistência que se expande e movimenta; em Aldrava essa voz ganha versos atravessados por um respiro mais profundo, como se cada palavra fosse precedida pela tomada de fôlego para gritar o que precisa ser dito. Na obra, a poesia é uma batida forte na porta, uma voz poética que convoca e exige escuta. Escritos durante a pandemia da Covid-19, os poemas de Aldrava trazem questões como ancestralidade, memória, resistência, feminismo, amor, antirracismo e maternidade; esses temas ampliam a vivência individual pro coletivo, o corpo do poema é enfrentamento e denúncia. Em “Manifesto vaga-lume” (p.12): “Para prosperar, o fascismo precisa de corpos tristes,/ cansados e silenciosos./ Mas nossos corpos sabem dançar ao redor do fogo”, a voz lírica estabelece uma disputa pela própria capacidade de (r)existir, evidenciando que a opressão atinge a dimensão afetiva, física e política, mas a sujeita lírica retrata uma ruptura, pois essa comunidade se movimenta e dança, dançar é uma resposta política e é uma das imagens poéticas bonitas da obra, pois entre os verbos que poderiam ser usados, como lutar ou resistir, dançar evidencia que esses corpos reivindicam seu direito de existir e experimentar a vida e, para continuar resistindo, ela se vinga por meio da palavra, fomentando o seu grito e o grito dos seus.
Em 2025, ao ingressar no doutorado, retomei o estudo da poesia de Cardoso com o propósito de desenvolver uma pesquisa sobre sua lírica, especialmente a partir do livro Aldrava. Ao final daquele mesmo ano, para a minha surpresa, a poeta publicou, de forma gratuita, em seu Instagram, a obra Pequeno manual para ensaiar o grito (Triluna, 2025), que desde a primeira leitura passou a integrar o corpus da minha pesquisa. O livro traz, já em suas primeiras páginas, um alerta de gatilho, anunciando a presença de temas relacionados a diferentes formas de violência contra as mulheres. Se em obras anteriores a voz feminina sussurra, sibila, engendra o grito, nesta obra os versos gritam a dor de um corpo que, por muito tempo, foi silenciado e violentado por diferentes formas de opressão. A voz lírica é direta e contundente, faz ecoar as dores que atravessam as vivências das mulheres de diferentes idades. Pequeno manual para ensaiar o grito é o grito cru e pronto, ele não expressa apenas a dor, mas a ruptura com o silêncio.
Na poesia de Aline Cardoso, o sussurro não desaparece, ele se transforma em grito, se movimenta e ecoa, como diz a voz poética: “Estou removendo pedregulhos,/ armadilhas, crenças, valores/ e outras coisinhas traiçoeiras feitas para nos neutralizar.”. Após esse grito, resta permanecer à escuta dos que ainda virão. Aguardemos, então, o próximo rugido da poeta.
Autoria: Isabela Cristina Gomes Ribeiro Da Silva é Licenciada, mestra e doutoranda em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (PPGL/UFPB). Desde 2019, participa do grupo de pesquisa Laboratório de Estudos de Poesia (LEP), e seus estudos são direcionados à poesia contemporânea de autoria feminina na Paraíba.
MULHERIO DAS LETRAS
Coletivo literário feminista que reúne escritoras, editoras, ilustradoras, pesquisadoras e livreiras, entre outras mulheres ligadas à cadeia criativa e produtiva do livro, no Brasil e no exterior, a fim de dar visibilidade, questionar e ampliar a participação de mulheres no cenário literário.