Como já sabemos, o açude (barragem) de Engenheiro Avidos não faz parte do projeto da transposição (pelo menos ainda não). As águas do São Francisco transpostas apenas passam pelo seu leito. Por isso foram construídas duas grandes barragens a montante: Boa Vista e Caiçara. Ora, a montante de Engenheiro Avidos significa que toda “água endógena”, ou seja, água de chuva, que cai nas cabeceiras que compreendem as bacias das novas barragens, que antes fluiam naturalmente para Engenheiro Avidos, hoje estão ficando retidas na Caiçara e Boa Vista. Sobre isso eu não vi nenhum representante da CAGEPA, DNOCS, ANA, ou algum Deputado, levantar essa preocupação. A imprensa fez muito barulho na crise hídrica pela qual passamos no final de 2025, mas não tocou no assunto com essa especificidade.

Sobre este problema, cabe algumas indagações: Quantos milhões de m³ Engenheiro Avidos já perdeu de água de chuva nesses últimos 8 anos a partir da construção dessas novas barragens? Quando e como essa água será reposta/compensada? Ficará algum “crédito de água” para Engenheiro Avidos junto ao DNOCS, já que água endógena é dos céus e estão sendo irresponsavelmente subtraídas de Engenheiro Avidos? Porque, uma vez retida em Caiçara e Boa Vista, a gestão é da ANA e a população urbana dela não está podendo fazer uso. Ou o governo do estado terá que comprar uma cota de água para abastecimento urbano quando milhões de metros cúbicos de água de Avidos estão hoje dentro das barragens da transposição?

A problemática do baixo nível em que ficou o açude que abastece Cajazeiras e Sousa nos últimos meses de 2025 deu uma arrefecida porque choveu bem nos primeiros meses deste ano. Mas teremos agora longos meses sem chuvas pela frente e um “inverno” menos generoso no próximo ano por conta do El Niño. A hora de exigir providência e clareza por parte do DNOCS e da ANA é agora e não quando Engenheiro Avidos estiver no volume morto. Os representantes políticos do Alto Sertão precisam usar os argumentos corretos e dar ciência aos responsáveis federais e mudar esta realidade.

“Boqueirão”, como costumamos chamar, já enfrentou anos a fio de chuvas abaixo da média, e jamais chegou a um nível tão baixo quanto o verificado no último ano, mesmo após 5 anos com chuvas acima da média. E a explicação está no fato de nossa barragem ter perdido poder de recarga após a construção, nas suas nascentes, das duas novas citadas barragens. A verdade é que, até aqui, a transposição do Velho Chico só trouxe prejuízos ao nosso Boqueirão e seus usuários.

Dermival Moreira