Chegou a hora e a vez do Brasil no Cinema. No ano passado o filme ‘Ainda Estou aqui’ ganhou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. E Rodrigo Santoro brilhou em duas obras primas: ‘O Último azul’ (a velhice na terceira idade feminina) e ‘O Filho de Mil homens’ (a nova imagem do masculino).
Em 2026, Kléber Mendonça Filho e Wagner Moura colocaram o Brasil no topo do Cinema Mundial, com o filme ‘O Agente secreto’, que funciona como farol num país (quase) ‘sem memória’. Kléber usa as metáforas da perna cabeluda, tubarão e gata com duas caras, como imagens carnavalescas, com matizes do ‘realismo mágico’. O espírito do Teatro do Absurdo, em ‘O Agente Secreto”, funciona como revelação das entranhas alegres, trágicas, sonoras, visuais e carnavalescas do Brasil (e Recife) nos ‘estranhos anos 70’.
Subversivamente, o imaginário popular ri dos fuxicos e mentiras do jornal. As atrocidades ocultas dos militares, polícias, milícias e esquadrão da morte já são (velhas) conhecidas dos cidadãos informados.
Mas, o ‘carnaval das imagens’ de ‘O Agente Secreto’, instiga a imaginação e a curiosidade. Espanta o medo da ditadura, repressão policial, política e sexual que assombra o mundo dos sonhos e o mundo de vigília. O filme ajuda a exorcizar as ‘almas sebosas’, imagens e discursos dos bolsossauros, trumpistas-zumbis e outros espectros que nos aperreiam.
É extraordinário o seu poder de contágio no Brasil e no Exterior, e a quantidade de prêmios arrebatados (Cannes, Veneza, etc) com pirraça e genialidade. Surge uma nova alegoria nacional, uma verdade seduzida do Brasil, que nem nós nem os gringos conheciam. Depois da pandemia (na saúde) e pandemônio (na política), o Brasil hoje ressuscita e resplandece, e até parece ter ficado inteligente outra vez, graças ao novo Cinema Nacional.
Gláuber Rocha revolucionou o Cinema Novo (nos anos 60), e Mendonça Filho transfigurou, para o melhor, o cinema e a nossa cultura POP audiovisual, que se irradia no neo cinema e na pós-TV: há os cinemas de rua (o São Luiz), cinema de shopping e a NetFlix, um caso feliz da ‘tela total’.
Como bom presságio, o roteiro foi transformado num belo livro, com imagens sobreviventes do Recife, fotos-documentais, prefácio de Kléber e posfácio de Wagner Moura: uma aula magistral sobre cinema e audiovisual.
Há centenas de entrevistas, análises e reportagens no YouTube, que constituem um ‘novo estilo de jornalismo’, uma nova esfera pública digital. Nasce assim um ‘espaço crítico expandido’, que pode orientar as novas gerações de e-leitores conectados e também os e-leitores veteranos.
A narrativa gera uma forma de educação estética, cognitiva, política, e a trama social do filme funda a sociologia de uma memória mal resolvida.
Este é um trabalho de reconstrução da memória e aprendizagem audiovisual do Nordeste e do Brasil de ontem, com dados históricos e ficcionais, que lançam luzes no escuro, para entendermos as tramas da atual nação polarizada.
Desenha-se assim um ambiente antirracista(os pretos arrasam em cena), anti-classista(denúncia as regalias dos ricos-predadores), feminista (desmonta o machismo e as pulsões feminicidas), denuncia a violência da homofobia, e revela o pacto dos tubarões-predadores de vários matizes (empresários cúmplices da ditadura se aliam aos milicos e autocratas locais).
Todavia, “sem querer”, cutuca o etarismo, realça a dignidade, graça e sabedoria da mulher velha: o mérito do filme reside nas redes de afeto e solidariedade que se tecem na comunidade de ‘outsiders’ (marginalizados) que habitam a casa da maravilhosa Dona Sebastiana (Tânia Maria).
O desfecho anti-climax, sem final feliz, parece triste e desolador, mas dá o exemplo de uma grande ‘obra de arte’, que mostra o resgate da memória (pelas jornalistas com alma de historiadoras). Consiste numa senha de acesso à informação e ao conhecimento, uma trilha viável para o empoderamento, exercício altivo da soberania em tempos e guerra.
Em termos populacionais, ‘O Agente Secreto’ agrega um grande número de nordestinos talentosos. Numa ‘obra em mosaico’, com diversos núcleos e histórias paralelas, os artistas paraibanos – mostram que não há pequenos papéis, mas grandes, boas e minimalistas interpretações; e então, destacaríamos com louvor, as participações de oito atores que contribuíram para a elevação desse grande edifício artístico-cultural.
Claudio Paiva
Professor Titular - Departamento de Comunicação - UFPB. Mestrado e doutorado em Sciences Sociales - Universite de Paris V (Rene Descartes).