Os primeiros poemas que li no primeiro dia de 2026 estão no livro “Peguei o Sol no pulo”, da poeta mineira LíriaPorto. Publicação de 161 páginas que saiu pela editora Casa Verde, de Porto Alegre. O prefácio é assinado pelatambém poeta mineira, Adriene Garcia e os escritos daorelha ficam por conta de Maria Valéria Rezende.

Valéria, autora de “O voo da guará vermelha (e muitos outros livros), faz uma síntese interessante da poesia de Líria Porto: “é arte, daquela arte que ilumina a vida, sem a qual nossa humanidade definha. Líria nos oferece uma poesia escrita com as lâminas mais afiadas da linguagem. A sequência dos seus poemas aponta para uma irresistívelartilharia de pequenos petardos líricos.

O livro traz o carimbo das edições sempre bem cuidadas da amiga Laís Chaffe e o reconhecido talento do design Auracebio Pereira. Ele soube traduzir a concretude e o lirismo furioso da Líria Porto. O livro é precioso, também,a partir da capa e do projeto gráfico. É resultado deleituras sensíveis de dois profissionais que dispõe demuitos recursos à disposição de cada poema.

Em “Inquietude”, por exemplo, Auracebio performa ao provocar um reflexo como se o poema estivesse diante doespelho. Mostra o quanto a poesia da Líria faz com que o nosso olhar se volte para dentro. Para onde cada poemaextrai infinitos em versos limados na forma cabralina, até o osso: “os degraus de gelatina/ a vida sem corrimãos o pântano/ o lamaçal// por tudo quanto é sagrado/ canta para eu dormir – espanta/ a escuridão.

É uma poesia que nos atravessa provocando o abalo sísmico dos sentidos. Algo que arranca impressões incomuns das coisas comuns. Seus versos passeiam por diferentes temas como quem dança o Lago dos Cisnes numa praça. São poemas fruto de um silêncio espalhafatoso soprado em cada verso. Algumas vezes a poeta arremessa pedradas de sabor aforismático para esgarçar nossa inquietude.

O mundo e seus desmantelos, a condição humana… são muitos os traçados que definem as suas escolhas. Sem pressa, ela vai do feminismo ao erotismo. Sempre numaesgrima lírica que não se intimida diante da ironia e do deboche. É uma poesia do cotidiano, do imperceptível, mas também do que grita pelas esquinas. Líria é o que há de mais contemporâneo na moderna poesia brasileira.

Nascida em Araxá, ela elabora a sua teoria do poema em títulos como “Arquitetura” (pg 74): “palavras pensamentos gestos emoções/ e mais que tudo – um poema é feito/ de susto”. Ou em “Bisturi” (pg 72): “poeta/ nau frágil/ mar de emoção// navegar é preciosismo/ escrever é precisão”. A metalinguagem é a sua espada de Xangô. Na poesia, LíriaPorto está vestida com as armas de Jorge (da Capadócia).

Desfiando este belo “Peguei o Sol no pulo” lembrei de um texto que li de Wilson Martins, publicado anos atrás no Jornal O Globo. Ele falava em “Imagem Absoluta”. O que os poemas da Líria oferecem são imagens incondicionais.Ela parece conduzir uma quebra de espelhos do modernismo e das vanguardas.

A poeta convida leitores e leitoras para uma dança onde ela própria rege os movimentos. Sua escrita aponta para a medula das coisas. Elimina os espantalhos para permitir-seaos pássaros. Líria desafia o óbvio desafiando-se numartesanato de conspirações sempre surpreendentes. Como ela mesma diz, “a liberdade é sem beira/ tem a lonjura das asas.

Líria escreve poemas que não temem a profundidade do raso nem a rasura do abismo. Se joga como uma trapezista sem rede de proteção. Escreve como quem mente, mesmo sabendo dos sentimentos provocados. A exemplo de “quando partiste/ levaste a estrada”. Um arrebatamento para quem lê e sabe que o prazer da leitura não mede distâncias com a dor.

Ou em “Surto” (pg 35): “a mim não me importa/ se o verso é curto se a rima é torta/ se a morte furta o calor do corpo/ o luar o sol// prossigo absorto/ a tirar da aorta o ardor a força(…)” Enfim, uma poesia apaixonada, como “fio desencapado/ plugado em alta/ voltagem” (pg 52).

Líria Porto é das poetas cuja produção voa faceira por sobre premiações ou badalações do momento. Está inscrita na poesia brasileira que irá atravessar as próximas décadas ainda com mais força. É um tipo de escrita que jorra naturalmente. Conforme Jacques Derrida, “unida à voz e ao sopro”. Acordar e ler uma poeta assim, torna a vida mais leve.