Hoje o céu está preparando uma sala de aula para Dona Nazinha! Os anjos, com certeza, estão ansiosos para acolhê-la e aprender com seus ensinamentos. Um jarro de flores, livros de Paulo Freire e dos grandes mestres, a cartilha do ABC, a tabuada, giz, a lista da chamada (serão todos anjos) serão colocadas a sua mesa, e para completar uma lousa verde, e as carteiras enfileiradas. Eles dirão: Bem-vinda Professora Nazinha! Seremos a partir de hoje seus queridos alunos!

Conheci Dona Nazinha através da sua filha Jussara, minha amiga, comadre, colega de profissão, e assim aprendi a admirá-la e a respeitá-la pela sua história de vida. Da imensa gratidão que Jussara e toda a família tem por essa mulher que dedicou a sua vida a educação de várias gerações em Olho D’agua do Borges. A vida dos pequenos filhos se entrelaçava com a vida dos bancos escolares, em um certo momento da vida foram criados no lugar que a mãe ensinava. Com o punho forte e maestria, ela conduzia seus alunos e seus filhos, além de muita sabedoria, ética e paixão. Trago aqui as palavras do Mestre, que melhor pode definir essa grande educadora: “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria”.

E foi essa alegria e boniteza que Jussara me repassou ao falar da sua mãe, que até nos últimos dias de vida, lia intensamente, mesmo que a memória não fosse mais sua companheira, mas lá, em algum lugar do cérebro ou do coração, havia essa força que fazia parte do seu ser e nada e ninguém a tomaria dela.

E dentre de tantas histórias que escutei, uma me chamou a atenção e eu não poderia deixar de escrever um pouco sobre; acredito que todos já ouviram falar de um filme de Walter Salles, de 1998, Central do Brasil, com Fernanda Montenegro. A estória se tratava de uma mulher que, para sobreviver, escrevia cartas das pessoas que não sabiam ler para enviar aos seus entes queridos que haviam partido para o sul maravilha.  Da ficção à realidade, de Dora para Nazinha, esse fato aconteceu nos anos 60, 70, das grandes cercas nordestinas, do êxodo rural, da diáspora nordestina. Eram tempos difíceis, o nosso nordeste sem oportunidades, no máximo os homens iam para as frente de trabalho (construção de açude ou estradas) ou iam embora para o Rio ou São Paulo em busca de empregos. Aqui ficavam as mulheres e seus filhos, alguns voltavam, outros não, construíram novas famílias por lá. Trago na memória a música do rei do Baião: Hoje longe, muitas léguas numa triste solidão, espero a chuva cair de novo, pra mim voltar pro meu sertão”. Quantos queriam voltar e jamais retornaram ao seu querido torrão!

E Dona Nazinha, era aquela que se dispunha a escrever as cartas para seus conterrâneos: algumas cartas de amor, outros dizendo que mais um filho se foi (era tempo da desnutrição, das diarreias e dos anjinhos – crianças que morriam antes de 1 ano de vida), alguns querendo saber quando irá retornar, outros também querendo ir ao encontro dos seus. Dona Nazinha estava sempre atenta, compreendendo os problemas e tentando amenizar a vida de cada um por meio daquelas cartas que levavam um pouco de esperança e conforto aqueles que estavam distantes.

Uma história de amor ao seu povo.

A essa escritora de encantamentos, a nossa mais profunda admiração.

Me despeço deixando um abraço apertado a toda a família, em especial a Jussara, Jacqueline, Bena, Jailson, Vitória e Raoni.

Meine Siomara Alcântara, enfermeira, historiadora, escritora, membro do Clube literário Mulherio Zila Mamede. Doutoranda em Saúde da Família pela RENASF – nucleadora UFRN. Filha de Pedro e Ocimar e mãe de Vitor e Maira.