A morte de Tainara nos alcançou de uma forma ainda mais brutal: foi vista. Circulou nas redes sociais, repetida, compartilhada, consumida como espetáculo. Diante das imagens, ficamos atônitas e atônitos, paralisados entre o choque, a impotência e a indignação profunda. Não era apenas a notícia de mais uma mulher assassinada, era a exposição crua da violência, transformada em conteúdo, arrancando de nós qualquer ilusão de distância ou neutralidade. O que resta, depois do horror, é um clamor coletivo por justiça.
Essa espetacularização da morte feminina não é neutra. Ela faz parte de um regime de violência que, ao mesmo tempo em que mata mulheres, banaliza essas mortes. O corpo feminino violentado é historicamente tratado como objeto público: pode ser julgado, controlado, exibido, descartado. Como alerta a pesquisadora Débora Diniz, a crueldade contra as mulheres se sustenta quando a sociedade aprende a olhar sem se responsabilizar, quando o horror não produz ruptura, mas repetição.
A morte de Tainara não é um fato isolado. Ela se inscreve em uma longa sequência de assassinatos de mulheres que têm origem em um sistema patriarcal secular, estruturado para hierarquizar vidas. Um sistema que atribui valor aos homens e submete as mulheres; que ensina que eles mandam e que elas devem ceder; que naturaliza o controle, o silenciamento e a violência. Mulheres seguem sendo mortas porque ousam existir como sujeitos de direito – livres, autônomas, inteiras.
O feminicídio é a face extrema de uma pedagogia do ódio. Um ódio aprendido, cultivado e legitimado por discursos que tratam mulheres como posse, como extensão da vontade masculina. Não se mata por amor. Mata-se por dominação, por ressentimento, por uma masculinidade adoecida que confunde poder com afeto e controle com vínculo.
Por isso, este texto é também um chamado direto aos homens. Um chamado à responsabilidade. É preciso parar. Parar de ver mulheres como objeto ou propriedade. Parar de naturalizar o ciúme, a vigilância e a violência como traços masculinos aceitáveis. Parar de silenciar diante da brutalidade praticada por outros homens. Refletir, rever privilégios, buscar tratamento, aprender a lidar com frustrações sem transformá-las em agressão.
O feminismo não quer guerra. Não quer vingança. Quer vida. Quer paz, igualdade, equidade e respeito. Quer relações baseadas em amorosidade, diálogo, compreensão e divisão justa do trabalho e do cuidado. Quer que mulheres possam viver sem medo. O medo cotidiano, histórico, que nos acompanha ao sair de casa, ao amar, ao dizer não.
Aprender a amar uma mulher de verdade exige desaprender o patriarcado. Exige escuta, empatia e reconhecimento da autonomia feminina. Exige entender que nenhuma frustração justifica a violência, que nenhuma cultura autoriza o assassinato, que nenhuma imagem compartilhada pode substituir a responsabilidade coletiva por justiça.
Enquanto mulheres continuarem sendo mortas e suas mortes transformadas em espetáculo, a sociedade seguirá doente. A morte de Tainara nos convoca a não desviar o olhar, mas também a não nos acostumar. Que o horror não nos paralise. Que ele nos mova à transformação, à responsabilização e à defesa inegociável do direito das mulheres de existir.
Zezé Béchade
Zezé Béchade é jornalista, especialista em Gestão e Políticas Públicas, bacharela em Direito e mestra em Ciências Jurídicas-Direitos Humanos.