O calendário nos aponta o 8 de março como um dia de celebração, mas a profundidade desta data reside, na verdade, na memória de uma resistência ininterrupta. Não se trata apenas de uma homenagem protocolar às mulheres; trata-se de reconhecer a trajetória de quem, através da luta feminista, precisou romper barreiras históricas para reivindicar o que sempre lhe pertenceu por direito. A inclusão no mercado de trabalho e o acesso a formações acadêmicas de excelência não foram concessões do tempo, mas conquistas territoriais de mulheres que provaram, na prática, que a competência técnica e intelectual não possui gênero. Só para citar algumas necessárias conquistas e reconhecimento.
Entretanto, ao olharmos para o presente, percebemos que a batalha mais árdua ainda é aquela travada pelo reconhecimento da dignidade humana básica. Estar presente nos espaços de poder e de trabalho é apenas o primeiro passo; a verdadeira vitória se consolidará quando o respeito profissional for a regra e não a exceção. Isso exige, obrigatoriamente, o fim das disparidades salariais gritantes, garantindo remunerações justas e rigorosamente equiparadas às dos homens que exercem as mesmas funções. A dignidade profissional é um pilar da liberdade, e não há justiça social enquanto o talento feminino for subestimado ou silenciado em ambientes de decisão.
Contudo, essa dignidade é frontalmente golpeada por uma calamidade pública que não retrocede: a violência de gênero. Os números são estarrecedores e revelam que o Brasil registrou o recorde histórico de 1.568 feminicídios em 2025, uma alta de 4,7% em relação ao ano anterior. Mais alarmante ainda é o cenário da violência sexual, com mais de 87 mil estupros registrados em 2024, o que equivale a uma mulher violentada a cada seis minutos no país. Esses dados não são apenas estatísticas frias; são o retrato de uma sociedade onde a integridade física ainda é um direito negado e onde o lar, para 66% das vítimas, ainda é o lugar de maior perigo.
Somado à insegurança física, o debate sobre a emancipação feminina passa, hoje, pela justiça no tempo de vida. A discussão sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da exaustiva escala 6×1 é, em sua essência, uma pauta de sobrevivência para as mulheres. Segundo o IBGE, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados — quase o dobro das 11,7 horas dedicadas pelos homens. Manter jornadas laborais que ignoram essa sobrecarga histórica é perpetuar uma forma de violência invisível que rouba da mulher o direito ao descanso, ao estudo e ao simples exercício da própria subjetividade.
Nesse processo de evolução, é imperativo que os homens abandonem a visão obsoleta que coloca a mulher em segundo plano ou em papéis de suporte. O mundo contemporâneo clama por uma parceria real, onde a mulher seja enxergada como uma igual, detentora de uma competência técnica vasta e de um diferencial humano precioso: a sensibilidade. Esse olhar diverso, capaz de humanizar processos e promover o acolhimento, é o que permite a construção de ambientes verdadeiramente democráticos, onde todas as pessoas sejam respeitadas em sua essência, sem preconceitos ou exclusões. Que este 8 de março seja, acima de tudo, um compromisso renovado com uma sociedade onde a equidade, o respeito e a dignidade humana das mulheres sejam o motor da nossa história.
Zezé Béchade
Zezé Béchade é jornalista, especialista em Gestão e Políticas Públicas, bacharela em Direito e mestra em Ciências Jurídicas-Direitos Humanos.