Cena de ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho. (Fonte: Victor Jucá/ Divulgação)

Finalmente começou o ano de 2026. O Carnaval acabou e já se passaram alguns dias desde que assisti O Agente Secreto”. Não surpreende que o filme tenha agradado tanto público e crítica no exterior. São duas horas e quarenta minutos sem um único instante de monotonia. Saí do cinema sabendo que não tive olhos nem ouvidos para ver, sentir e ouvir tudo.

O que vi foi um monolito. Uma história densa sendo contada enquanto outras tantas histórias são sugeridas e permaneceram abertas. Destaco inicialmente uma trilha sonora que realiza um percurso que vai da psicodelia de Harpa dos Ares, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, aos clássicos do romantismo brega de Waldick Soriano. Não é por acaso que o cinema brasileiro está conquistando o mundo.

O filme oferece uma fratura exposta da nossa história recente com flashes de uma tragédia cultural brasileira que se moderniza, mas é permanente. Não se trata apenas de mais um roteiro sobre alguns dos muitos efeitos nefastos da ditadura brasileira. O diretor Kleber Mendonça Filho oferece outras tantas conexões surpreendentes. Revela o tanto de ficção que há na realidade e vice-versa.

O roteiro convida a viajar, sem alardes, nas quimeras do Brasil real. Mostra um país onde ainda pulsa uma normalidade repulsiva, refletida para muito além dos fatos. A exemplo do menino Miguel. Negligenciado no elevador, pagou com a vida por não receber a mesma atenção que sua mãe dava ao filho do prefeito. Ou nas iluminuras que celebram o poeta Miró da Muribeca. Kleber nos mostra que cinema pode ser também uma declaração de afeto.

O roteiro percorre os modelitos da antipolítica e da necropolítica que sempre se blindaram nos mantos da falsa moralidade. Mostra a crueldade e a inocência convivendo sem culpas ou distâncias disfarçadas. O diretor soube captar a dimensão milimétrica de uma história que se alimenta do passado e que se faz cada dia mais fortalecida para o bem e para o mal.

Destaco ainda a escolha do elenco. Não importa em quantas cenas cada ator e cada atriz surge na tela. Todas as cenas são surpreendentes e contribuem decisivamente para que o filme seja o que é: um compacto de intensidades. Podemos dizer que há um protagonismo coletivo muito feroz. Cada corte é uma janela de infinitos. Tudo se multiplica e exige uma atenção permanente do público.

Da primeira até a última cena parece que um rascunho sociológico de onde o diretor extrai  um realismo fantástico. Aliás, a primeira cena poderia ser um curta. É uma história com começo, meio e fim. E é como um sumário do que ainda viria surpreender mais e mais. A banalização da morte, o olhar seletivo sobre a violência e a corrupção policial. A distância abismal entre crime e castigo. Tudo está posto.

Todavia o roteiro também oferece outras compreensões. É um convite aberto para outros olhares. O filme de fatoescancara a espinha dorsal de uma ditadura. Mostra uma estrutura onde a corrupção vai tecendo destinos com sua crueldade presumida. O cotidiano é sustentado nas violências silenciadas. Dói saber o quanto a cultura autoritária permanece, mesmo não sendo mais tão absoluta.

Na estampa de situações reais, a subjetividade parece um fio invisível customizando o tempo. Uma Arca de Noé de memórias atemporais. O infinito reside nos detalhes de uma época em que fora dos calabouços a vida também pulsava seus medos e suas guilhotinas normativas. O filme revira memórias. Especialmente aquelas que não estão no roteiro.

A narrativa construída parece infinita e vai habitando lentamente a memória coletiva de diferentes formas. Fazrevelações sem o charco incerto das certezas. Mostra o quanto somos ainda incipientes diante dessa abstração que é o tempo linear. Essa régua rasgando calendários. Como se o medo fosse uma perna cabeluda atravessando a praça

Mesmo nesse ambiente de dissonâncias messiânicas em que vivemos, o cinema brasileiro vive um grande momento. A repercussão mundial da produção audiovisual brasileira começa a se estabelecer como um destino natural. “O agente secreto” é um filme para ser visto e revisto. Aguça uma sensibilidade que nos ajuda a ver o mundo sem a lente opaca das ilusões perdidas.